Year: 2015
Type: article
Abstract: Avenida Paulista (nome que se dá àquele que nasce no estado de São Paulo), Rua Dois (numeral que indica o posicionamento da rua na cidade, entre as Ruas Um e Três), Jardim Europa (nome de um bairro que faz referência a um continente), Ponte Octávio Frias de Oliveira, Rua das Gardênias (nome de uma flor), Largo do Arouche, Praça da Sé: são todos nomes de ruas, praças e outros lugares públicos.2 Onomástica é o nome de um ramo da Linguística, encarregado do estudo dos nomes próprios.Sub-ramo da onomástica, a toponímia encarrega-se de entender os nomes dos lugares.Segundo Dick (1987), uma das grandes estudiosas brasileiras sobre a toponímia, a disciplina nasceu no final do século XIX, na França, quando Auguste Longnon deu início a seus estudos no Collège de France, e com a publicação póstuma de sua obra clássica Le noms de lieu de la France.No Brasil, a toponímia durante muito tempo se manteve não apenas como objeto de curiosidade, mas também como uma forma de preservação desses nomes, destacando a contribuição indígena aos nomes de lugares, sobretudo em obras como O Tupi na geografia nacional, de Theodoro Sampaio, e Contribuição do Bororo à Toponímia Brasílica, de Carlos Drummond de Andrade, contudo, atualmente se caracteriza como um campo consolidado da Linguística. 3Em termos de estudos a partir do Brasil, no caso mais específico da Antropologia, destacam-se as discussões sobre os povos das terras baixas da América do Sul.Desde o texto clássico de Lévi-Strauss (1989 [1962]) sobre o pensamento selvagem até a exegese de Etnografia de Espaços Estatais: Os Nomes das Ruas da Cidade de São Paulo Ponto Urbe, 16 | 2015 1Viveiros de Castro (1986) sobre o continuum endonímico e exonímico de atribuição de nomes, a onomástica ganhou centralidade, ao colocar a reprodução humana e sua visão sobre esse processo em conjunto com a outorga de nomes, como imprescindíveis para entender as cosmologias dessas sociedades. 4O objetivo específico deste artigo é refletir sobre a outorga de nomes de lugares, captando o processo de denominação (seus elementos constituintes) e tentando fazer dialogar uma antropologia do Estado com uma antropologia da paisagem, a partir de uma etnografia realizada na Câmara Municipal de São Paulo, portanto, levando muito em consideração o que os vereadores pensam e produzem sobre o tema.Nesse sentido, o objetivo geral é colaborar para a análise de processos sociais que fazem parte de nosso cotidiano, mas, embora muito próximos, são geralmente percebidos de forma automática: as homenagens públicas (isto é, feitas pelo Estado), especialmente, os processos de denominação de lugares públicos tanto em seu aspecto classificatório como político -se é que se podem separar essas esferas. 5Em minha pesquisa de doutorado busquei compreender a dinâmica das homenagens públicas da Câmara Municipal de São Paulo.Os parlamentares entendem por homenagens desde a concessão de honrarias, como títulos e medalhas, até a denominação de logradouros públicos.Segundo a organização não governamental Transparência Brasil, a maior parte das proposições parlamentares (cerca de 90%) é de homenagens 1 , dentre elas, a denominação de logradouros.Para entender a dinâmica de denominações e honrarias, é importante ter em mente que não há grandes diferenças entre situação e oposição, ou direita e esquerda 2 , no que se refere à quantidade e periodicidade das proposições.Todos os 51 vereadores com mandato (2008)(2009)(2010)(2011)(2012) realizaram algum tipo de homenagem.O que pode variar nesses casos são as pessoas que cada vereador considera dignas de homenagens.Por meio dessas homenagens, grupos, temas e problemas que o vereador supõe representar são enredados, atuando na criação do perfil do vereador em conjunto com os grupos e pessoas homenageados.Todos se utilizam do procedimento, mas enredam nesse processo segmentos diferentes.Parlamentares de esquerda podem vir a homenagear mais personalidades ligadas a movimentos sociais, os de direita, policiais e empresários, contudo todos agraciarão pessoas ligadas a famílias com influência e prestígio nas localidades.O dado importante é que esse recurso é utilizado por todos, pois eles as concebem como prerrogativas individuais respaldadas pela coletividade dos vereadores. 6O fato de todos se utilizarem, de uma maneira ou de outra, das proposições de homenagens é mais bem elucidado a partir da categoria acordo.Ela pode assumir várias posições numa cadeia estratificada de significados, como o acordo específico em torno das homenagens.Nas votações dessas matérias raríssimas vezes ocorrem discussões.Há um sentimento de mútua dependência entre os vereadores.Ter "bom trânsito", "facilitar o trânsito", "não ser radical" e "saber fazer acordos" são habilidades valorizadas internamente.O acordo opera num código que justifica tomadas de posição e orienta a ação.Ele pode significar não apenas a costura de uma aliança momentânea em torno de uma proposição, como também o compromisso tácito segundo o qual determinadas matérias não devem ser discutidas, mas, sim, aprovadas por unanimidade.Independentemente dos conflitos entre os parlamentares, observa-se uma etiqueta que regula suas interações, com seus cumprimentos e formas de tratamento ("nobre colega", "Vossa Excelência" etc.), que celebram a prática de evitar conflitos e a dependência mútua.
Source: Ponto Urbe
Author: Danilo César Souza Pinto
Institution: Southwest Bahia State University
Language: Portuguese
Subfield: Urban Studies
Field: Social Sciences
Domain: Social Sciences
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W1761395879
