Year: 2012
Type: dissertation
Abstract: publicado entre 1903 e 1914, e o Almanach Hachette, que esteve em circulação entre 1894 e 1980, busca aferir o engendro anual das cidades ideais, Paris e Rio de Janeiro, por meio do ato poético resgatador do Belo, para tessitura do Sublime, no melhor dos mundos possíveis de almanaque.É a feitura incessante de tal microcosmo místico-poético que permite aos leitores uma vida resguardada das problemáticas modernas, posto que dentro de tal redoma onírica passam por um processo terapêutico de cura dos males contraídos na massa caótica circundante, para então, sãos, poderem enxergar a verdadeira beleza do mundo.É, pois, o papel de tirar as escamas dos olhos, da Paidéia Poética diária, para alcance da acuidade de visão, que possibilita a denúncia do Feio simbolizado pelas mazelas da modernidade, o que permite a edificação de tal empírio terrestre, para a vivência do Tempo Sagrado advindo da nova Criação.Tal resgate do princípio do mundo, pela Poiésis, traduz a verdadeira idade de ouro na chamada Belle Époque brasileira e francesa, onde seus cidadãos vivem um tempo de eterna boa ventura, com toda sorte de abundância e de regozijo, caracterizada pela infinidade de almanaquias para deleite proveniente do Pays de Cocagne e do Eldorado.É a fartura de alimento poético, servido periodicamente na grande mesa da Terra sem Males de almanaque, que age no corpo e no espírito como tônico resgatador da plenitude perdida, simbolizadora da infinitude reconquistada, pela tessitura ininterrupta do Sublime, nas Repúblicas das delícias do Eldorado, não das Américas, mas de todos os continentes que compõem tal sítio maravilhoso.extremamente problemático.É dessa maneira que os balaios iam repletos de novidades, traduzidas em objetos diversos e literatura, para lugares os mais longínquos, o que se rememora simbolicamente por meio do comércio do almanaque francês nas bibliotecas de estação da Livraria Hachette que, segundo Mollier, eram mais de mil em 1890 5 , uma espécie de modernização dos cestos ou hôttes, visto que se o acesso era itinerante, permanece de certa maneira na modernidade, pois tais quiosques vão ao encontro dos leitores, ou passantes que simbolicamente flanam pela cidade, Paris, do melhor dos mundos possíveis.É por meio do papel dos colporteurs -mascates, de vendedores, mas facilitadores do conhecimento, atualizado na modernidade, pelas livrarias Hachette e Garnier, com suas devidas disparidades sobretudo no que tange à visada capitalista nelas inerente, que se analisa a importância de tais sítios para o desenvolvimento e divulgação do saber, a primeira, segundo Mollier, -também nomeada Bibliothèque des chemins de fer, por se encontrar no período que vê aparecer a primeira linha de caminhos de ferro francesa e por ter se valido de tal inovação, -é fundada em 1826, pelo editor Louis Hachette no bairro das escolas, Quartier Latin, intelectual de origem modesta, que, nesse mesmo ano, no momento em que ia concluir brilhantemente seus exames finais no curso de Direito e que o estágio seria apenas uma formalidade a cumprir, parte para a edição.Tal mudança permite o nascimento de uma livraria prestigiosa, que se tornou a principal companhia de edição de livros europeia e quiçá, do mundo, o que pode ser elucidado pela contratação de grandes nomes da literatura como, Baudelaire, Flaubert, Georges Sand, Dickens, Gogol, dentre outros, e pelo volume de negócios, nos últimos anos, que saltou para 18 milhões em 1878 e para 58 milhões às vésperas da Primeira Guerra Mundial 6 .De forma semelhante, o "faire du colportage" é modernizado na figura da Livraria Garnier, situada à Rua do Ouvidor, fundada em 1844 até os anos de 1920, segundo Dutra, pelos irmãos Garnier, Baptiste Louis e Hippolyte.O primeiro chega ao Rio de Janeiro e principia suas atividades em sociedade com a livraria de seus irmãos, que fica responsável pela impressão das edições brasileiras, mas que em 1852 tem seu rompimento, no entanto, após tornar-se proprietário exclusivo da livraria, Baptiste mantém a edição e, em certa medida, a venda dos livros do Brasil em Paris, além da venda dos títulos no Brasil, traduzidos ou no original, publicados pela editora parisiense Garnier Frères.A livraria logo se torna a principal casa editorial brasileira em detrimento das outras aqui estabelecidas, com o exercício 5 .Mollier, 1999, p.448. 6 .Ibidem, pp. 8, 11, 12, 448.modernidade, como simulação do mundo dentro de duzentos anos, Le Monde Dans Deux Cents Ans.É o que fez um escritor inglês e, colocado aqui como uma espécie de profeta em consonância com o universo místico e prognosticador dos almanaques, H -G Wells.Tal enunciador apresenta presságios sobre as novas máquinas que surgirão, as invenções e as descobertas do porvir e da ciência.O escritor supracitado é visto como dotado de imaginação prodigiosa, o que atesta sua prática enquanto autor, concomitantemente é apresentado como detentor de um saber simbólico que lhe permite descrever a imagem profética e insigne, de acordo com o texto, da humanidade em constante mudança.Já no início do texto, tem-se no título, o jogo simbólico representado pelo profetaescritor, apresentado como poeta, cujo nome por si só indica o seu caráter sonhador, mas que tem poder para prenunciar o porvir por meio da descrição do país onde tudo é paz, abundância e alegria, o Pays de Cocagne, Au Pays d'Utopie: Vision du Poète.O texto inicia por meio da abertura de uma cortina, como em um espetáculo no qual o mundo é representado dentro de duzentos anos, com a informação de que haverá as mesmas montanhas, os mesmos mares, os mesmos rios, mas com um manto novo, livre de seus ossos velhos e de seus músculos, com as reticências que prolongam o discurso.Ora, nesse universo diegético embebido de poeticidade, o narrador assegura ter passado três dias no país imaginário, cuja abertura da cortina permite o relato do que aí foi visto.Assim, o enunciador fala de tal país após a inevitável guerra, já com a mistura das raças e das classes, em que qualifica o combate como metódico, sem paixão, no qual os chefes das armadas dirigirão suas tropas sem vê-las, de bem longe, de um centro com arsenal geográfico e telefônico, onde os aeroplanos, os submarinos, os automóveis contornarão a morte e as imensas ondas magnéticas destruirão as cidades à distância.Apesar do prenúncio de tamanha dimensão, o narrador-áugure assegura que após esse período de conflito, a paz reinará por toda a terra, definitivamente, o que manterá o estado mundial constituído pelo consenso entre os povos.A partir de então, a civilização seguirá uma caminhada paralela e proporcional à rapidez dos meios de comunicação.Logo, a promessa de paz é assegurada de forma simbólica aos narratários, ou leitores dos almanaques, como uma espécie de terapêutica diante das intempéries da modernidade, estando na Paidéia Poética o caminho para apaziguar as dores e os temores de uma possível guerra, a de 1914, bem como de salvá-los da falsa idade de ouro e de dirigi-los para o Sublime.
Author: Tatiane Milene Torres
Language: Portuguese
Topic: French Literature and Poetry
Subfield: Literature and Literary Theory
Field: Arts and Humanities
Domain: Social Sciences
Open Access status: gold
OpenAlex ID: W1859408192
