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Bahsariwii: a Casa de Danças

Year: 2007
Type: article
Abstract: Ana Carla BrunoEm 2005, o pajé Tukano Gabriel Gentil recebeu da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) o título de pesquisador emérito no campo do conhecimento tradicional, e trabalhou no Centro de Pesquisa Leônidas e Maria Deane, em Manaus.O reconhecimento da Fiocruz a uma das principais lideranças políticas dos indígenas do Amazonas constituiu uma medida inédita no país.Gabriel Gentil publicou dois livros, O resgate da mitologia Tukano e Povos Tukanos: cultura, história e valores, pela editora da Universidade Federal do Amazonas.Em 2006 ele não resistiu a complicações do diabetes que o maltratava e morreu, aos 52 anos, em um hospital de Manaus.No presente artigo, Gabriel Gentil demonstra que estudar os significados expressos nos mitos "torna-se possível apenas quando ritos e mitos são vistos dentro de um contexto social e cultural específico" (Hugh-Jones, 1979, p.259).Ele destaca que a história oral e a mitologia entrelaçam-se, como um trançado de cestaria, explicando a dinâmica da organização social, cosmologia, construções de malocas, papel dos pajés, migrações e relações de trocas.Desafia o leitor a olhar os mitos e as cerimônias não como 'objetos História, Ciências, Saúde -Manguinhos, Rio de Janeiro GABRIEL GENTIL mentais', mas como algo concreto, reconstruído a cada nova situação de conflito ou mudança.Ao longo do texto, Gentil explica que grupos Aruak e Tukano mantiveram (e ainda mantêm) uma longa história de relações inter-etnias e inter-tribais, ressaltando que "todas essas tribos eram ligadas aos incas...", afirmação corroborada por lingüistas e arqueólogos.Ramirez (2001, p.1) menciona que a origem da dispersão geográfica Aruak ainda necessita ser esclarecida, mas sabe-se que foi uma das maiores expansões realizadas por ameríndios: "falava-se Arawak das Bahamas e da costa oriental da Flórida ao norte, até o Paraguai ao sul, desde o pé dos Andes ao oeste, até a foz do rio Amazonas ao leste ...".Neves (1998), por sua vez, afirma que a ocupação dessa região por povos Aruak e Tukano tem pelo menos três mil anos.Nota-se que essas populações indígenas estabeleceram entre si uma vasta rede de comércio e guerras, como também mútua interdependência.Gentil menciona nessa narrativa que, no passado, "era uma só tribo que falava uma só língua, casava-se com mulheres da mesma tribo.Depois, se tornou uma pluralidade de várias tribos, falando muitos idiomas diferentes...".Hoje, na região, há um sistema multilíngüe complexo, que envolve mais de vinte grupos lingüísticos a falar diversas línguas das famílias lingüísticas Tukano e Aruak, além de uma língua geral, o Nheengatu.Todo indivíduo conhece fluentemente três, quatro ou mais idiomas.Apenas os Maku e alguns não-indígenas não são multilíngües.Segundo Stenzel (2005, p.1), "este sistema multilíngüe é manifestado por meio do indivíduo e da comunidade, criando-se uma dinâmica lingüística em que forças de convergências e divergências estão constantemente criando significados".A principal razão para tal complexidade é a insistência em exogamia lingüística e residência patrilocal.Os homens devem se casar com mulheres que falam uma língua diferente da sua.Em tal situação, as crianças crescem ao menos bilíngües.Contudo, em princípio, a língua que identifica a pessoa, a aldeia e o grupo étnico são os do pai e não os do grupo lingüístico da mãe.No que se refere às organizações sociais, os grupos Aruak compartilham muitos padrões culturais com os grupos Tukanos, e ainda assim existem diferenças significativas.Os dois grupos organizam-se em diversas fratrias patrilineares exogâmicas.As fratrias Aruak têm nomes associados a territórios.Já as fratrias Tukano não têm nomes nem tampouco estão vinculadas a territórios, como as do grupo Aruak.Esses povos têm mitos de origem que explicam o sistema de hierarquia entre os 'irmãos'.Para os grupos Aruak, o sistema de hierarquia está vinculado a questões mitológicas como, por exemplo, a viagem de uma 'cobra-canoa' que, saindo do Lago do Leite, teria subido o Uaupés deixando, em cada território, os ancestrais desses grupos.Cada grupo, então, recebeu uma língua e um conjunto de bens como mitos, músicas, nomes e rezas xamânicas (Lasmar, 2005).Finalmente, na presente narrativa de Gabriel Gentil também observamos a importância dos pajés para esses povos: "Os Deuses entregaram aos chefes de várias tribos estas sabedorias, que foram repassadas aos Pajés em seus rituais de iniciação, transformandoos em Sábios Pajés.São os Pajés os responsáveis pela transmissão destes conhecimentos através de geração em geração".São eles os conhecedores das cerimônias de curas, das construções das malocas, da criação e manutenção dos cosmos.Nesta apresentação, procurei integrar a narrativa mitológica de Gentil a materiais históricos e etnográficos escritos sobre a região do rio Negro.Para facilitar a compreensão do texto indico, ao final, algumas referências bibliográficas.
Language: Portuguese
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W1886628940
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