Year: 1989
Type: article
Abstract: O Instituto de Estudos Avançados da USP me convidou para falar sobre destruição ambiental na Amazônia brasileira.Trata-se, evidentemente, de um tema muito amplo, que inclui desmatamentos.E, também, a problemática das hidroelétricas, mineração e muitas outras modalidades de destruição.Não pretendo e, certamente, não vou conseguir falar sobre todos os tipos de destruição que temos na Amazônia.E, nem tampouco sobre outras questões que o prof.Aziz mencionou ao me apresentar, tais como a capacidade de suporte e outros temas.Quero centrar minhas observações nos problemas de desmatamento da região: os impactos ambientais disso decorrentes; e algumas das causas dos processos que ali atuam.E, ainda sobre que poderia ser feito para atenuar ou estancar os processos predatórios.Abordarei, obrigatoriamente, as sérias questões envolvidas na construção das hidroelétricas.Em qualquer oportunidade, quando eu me refiro a assuntos ligados a desmatamentos, lembro que o grosso da Amazônia ainda tem o aspecto de uma imensa área florestada.Mesmo que a palestra seja sobre desmatamento, é sempre importante manter na mente que ainda existe muita floresta contínua, com mínima participação humana.Alguns diapositivos, que apresento, nos dão uma certa esperança de ter um quadro melhor; de poder conter ou reverter o quadro de destruição que vem ocorrendo, hoje, na Amazônia, mas, também, é importante lembrar que esse raciocínio tem muito de enganador.Ele pode conduzir muitas pessoas desavisadas a pensar que o desmatamento realmente não seja um problema tão grave assim.E, que sendo a Amazônia muito grande, onde ainda existem muitas florestas, seria praticamente impossível cortar toda a floresta.Infelizmente, esse não é o caso.A legislação que controla os desmatamentos é falha, existe muita permissividade para a continuação dos processos predatórios, e grandes interesses envolvidos na continuação do desmatamento; até que se chegue à última árvore.É a mesma coisa que aconteceu aqui no Brasil Centro-Sul, há 70 ou 80 anos passados.No Paraná, por exemplo -no início do século -o pessoal falava exatamente a mesma coisa: que a floresta era tão grande, que nunca ia se conseguir desmatar tudo.Entretanto, após algumas décadas, não existiam mais florestas por lá.O paralelismo é perfeito: o mesmo poderá acontecer na Amazônia, e, talvez com mais rapidez, se não forem tomadas medidas efetivas e de aplicação imediata.Quero lhes mostrar alguns dados sobre a marcha do desmatamento (dados já um pouco defasados) mostrando a ampliação das derrubadas, nos últimos anos, dentro de cada um dos estados e territórios, na Amazônia.Como se pode deduzir -em Mato Grosso, Rondônia e Acre -estão ocorrendo explosões de desmatamento, de forma exponencial -do tipo da inflação no Brasil -que se desdobra a cada ano.É esse o tipo de tragédia-surpresa que o desmatamento pode nos oferecer.Um tanto igual ao que as pessoas sentem quando vão para o supermercado e verificam o quanto aumentaram os preços, ou a idéia de que, com o quê, há dez anos atrás se adquirira uma casa, hoje se compra uma garrafa de Coca-Cola.Coisas assim: surpresas sucessivas, mesmo convivendo-se com a * Transcrição da Conferência do Mês (IEA/USP): "Destruição da Amazônia", realizada no Conselho Universitário em 24/11/88.tendência exponencial.Esse mesmo tipo de surpresa é o que se espera, se o desmatamento conservar esse ritmo no conjunto da região amazônica.Mato Grosso, Rondônia e Acre são os estados -na porção meridional da Amazônia -que estão recebendo o grosso dos emigrantes, provenientes do Paraná, e outras áreas da metade sul do Brasil, ocorrendo uma transformação da agricultura, e uma sentida diminuição de espaços para novos agricultores.O café e outras culturas, que exigem muita mão-de-obra, estão sendo substituídos por cultura de soja mecanizada; por trigo, e outras culturas, que não exigem muita mão-de-obra.Avalia-se que são onze pessoas expulsas para cada uma que consegue emprego na agricultura da soja.Então, essas pessoas, ou vão para as favelas das grandes cidades -como São Paulo -ou vão para a Amazônia.É essa a situação que tem que ser revertida.Temos dados sobre Rondônia, mais recentes do que aqueles, que indicam a continuação dessa tendência exponencial.A partir de 1985, houve um pequeno achatamento do aumento da área desmatada em Rondônia.Temos um dado de 1987: a partir da imagem de satélite utilizada e interpretada por João Pomalingrow, na Itália, houve uma avaliação de que 15,1% da Rondônia estava desmatada, até o ano de 1987.Se fosse feita uma projeção conservadora, usando os últimos dois anos de dados de satélite, seriam 17,1% de desmatado em Rondônia, até hoje.E, fazendo esse tipo de projeção conservadora, dentro de cada um dos estados e territórios da Amazônia, referente aos últimos dois anos de dados, a área desmatada, até agora, seria por volta de 400 mil km 2 .Isso significa um espaço 8% da região amazônica; quase duas vezes a área do estado de São Paulo.E, no caso, a taxa de aumento seria 35 mil km 2 ao ano; o que é uma taxa de aumento incrível.É muito maior do que a Bélgica, por exemplo, que possui somente 25 mil km 2 .Só para dar uma idéia: é o equivalente a desmatar um campo de futebol a cada cinco segundos, para se atingir a soma disso durante todo um ano.Trata-se, efetivamente, de uma taxa muito alta, que está aumentando a cada ano e, se continuar assim, em poucos anos ou dezenas de anos a floresta amazônica se extinguirá.Nessa altura, penso que é importante esclarecer os informes que vêm sendo noticiados, sobre uma divergência entre esses dados e os dados do estudo do INPE sobre queimadas, no decorrer do ano passado (1987).A reportagem que saiu na revista Veja (nº 1055, de 23/11/1988), dá a manchete que é "Guerra do Fogo", como se fosse uma guerra entre mim e o Alberto Setzer do INPE, que está presente neste auditório.E eu acho muito importante esclarecer que não existe nenhuma guerra entre os pesquisadores.Nós estamos colaborando, tentando melhor entender o desmatamento na região.Existe divergência nos dados, e isso é uma coisa estritamente técnica; não é, em absoluto, uma questão de guerra entre os pesquisadores.Pretendo explicar o que há de diferente em termos das estimativas.A tabela do Relatório do INPE indica que a Amazônia legal, como um todo, teve 200 mil km, ou 20 milhões de hectares queimados, em 1987.Agora, dentro da área considerada de florestas altas, a estimativa era de 80 mil km 2 , ou seja, 8 milhões de hectares.Existem várias razões para se afiançar que a área desmatada realmente não é tão grande.Como eu me referi, 35 mil km 2 são muito menos do que esses valores.Existem várias diferenças.Em primeiro lugar, esta é uma estimativa de queimadas, não de desmatamentos.É importante que se estabeleça que queimada e desmatamento são coisas diferentes; porque se queimam, também, pastagens, queima-se o cerrado, sobretudo na periferia da Amazônia.Queimam-se capoeiras.Além, evidentemente, de queimada e de derrubadas verdadeiramente novas.Então, uma grande parte do que se considerou atingido não é queimada de floresta recentemente derrubada.Isso nos autoriza a dizer que pode diminuir a avaliação dos 200 mil para 80 mil da área total de florestas derrubadas.Existem, ainda, outros detalhes sobre os aludidos dados.Um fato a referir é que os estados de Goiás e Maranhão estão incluídos; mesmo sabendo-se que grande parte de Goiás, especialmente, está fora da Amazônia.Trata-se predominantemente de áreas ocupadas, em que grande parte dos cerrados é queimada anualmente.A não-consideração desse fato, por certo, aumentou a estimativa do
Source: Estudos Avançados
Author: Philip Fearnside
Institution: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
Language: Portuguese
Subfield: Global and Planetary Change
Field: Environmental Science
Domain: Physical Sciences
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W1975354129
