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Cólera: um retrato permanente

Year: 2004
Type: book-review
Abstract: N os primeiros anos da década de 1990 uma epidemia de cólera grassou no Pará.Perante a ameaça, mobilizou-se o arsenal sanitário regional e, superado o desafio, a academia empenhou-se não só em explicar o ocorrido como também em (re)pensar a própria trajetória pretérita da enfermidade na região.Os resultados desta iniciativa foram objeto da pesquisa que resultou no livro de Jane Felipe Beltrão, que expõe a importância estratégica da história recorrente, isto é, de uma história explicitamente ancorada em uma problemática que incomoda por não estar confinada ao passado, mas que está aí, atuante e tragicamente ameaçadora.Com tal encaminhamento, a obra em questão retira do ostracismo uma parcela do histórico sanitário de uma extensa região do país.Se já se conta com um número razoável de estudos históricos sobre a doença e a saúde especialmente no Sudeste brasileiro, ainda são raras as análises históricas acerca do perfil patológico da região Norte, circunstância que amplia o valor e significado da pesquisa realizada por Beltrão.O livro prima por focar de forma singular a epidemia de cólera, que, importada do Oriente e trazida por imigrantes portugueses da região do rio Douro, abateu-se sobre o Grão-Pará entre maio de 1855 e fevereiro de 1856, disseminando-se de imediato por outras áreas intensamente povoadas do litoral brasileiro.Beltrão seguiu a epidemia desde a Europa, denunciando o estado de miséria que obrigava uma legião de portugueses a partir de suas regiões natais e o esforço das autoridades lusitanas em esconder a presença do mal do Ganges no seu território, a ponto de não impedir a saída da gente que vinha para o Brasil.Aqui, logo após a chegada dos lusitanos, a cólera apresentou os primeiros sinais devastadores, levando a comunidade médica paraense a se debruçar sobre a mortal ameaça.Em uma época em que, refletindo a tendência européia, os médicos brasileiros digladiavam-se na defesa dos pressupostos que defendiam os males de cunho epidêmico como resultado da infeção ou do contágio, o enigma da enfermidade ganhou contornos sombrios.Assim, enquanto o povo começava a morrer e os médicos debatiam os mecanismos de disseminação da doença inicialmente desconhecidos , no plano político e econômico as autoridades paraenses mostravam-se reticentes em assumir o estado pestífero, já que tal resolução implicaria a paralisação momentânea de muitos negócios provinciais.No mesmo enredo, se nada ou muito pouco foi realizado em defesa da população, pairava sobre os poderosos o receio de que
Language: Portuguese
Subfield: History
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W1990803477
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