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Migrantes na Periferia Urbana: redes sociais e a construção do bairro

Year: 2007
Type: article
Abstract: A partir de pesquisa que teve como objeto as redes de relações sociais em que estão envolvidos migrantes residentes no bairro Cidade Aracy, sito na cidade de São Carlos, interior de São Paulo 1 , este artigo prioriza aspectos que envolvem a ocupação do espaço urbano empreendida por esses migrantes.As relações construídas com o lugar (bairro e cidade) variam segundo as redes de relações, as quais instauram códigos capazes de fazer com que as pessoas relacionem-se e vivenciem de modo adverso espaços físicos comuns (Magnani, 2007). 2O conceito de rede social implica o contato que não é necessariamente visual, físico, mas social, pois acontece entre pessoas que possuem o mesmo sentimento de pertença a um campo de relações específico 2 .Mesmo que eu considere "o meio social imediato das famílias urbanas não como o espaço local em que elas vivem, mas como as redes de relações sociais efetivas que mantêm, independentemente de estas se restringirem à área local ou ultrapassarem suas fronteiras" (Bott, 1957: 97-9 apud Elias, 2000: 196), devo levar em conta que o bairro ou a área residencial das famílias também é provido de uma estrutura (Elias, 2000: 197).Por isso, não é possível pensar os migrantes fora da estrutura do bairro em que vivem. 3O que é importante para as famílias e indivíduos contidos em redes e o que é importante para a estruturação daquele local que ocupam são fatores que só podem ser pensados ao mesmo tempo (Elias, 2000).Como o bairro insere-se numa cidade, e faz parte de uma lógica que também é a lógica da cidade, descrevo-o procurando entender duas questões imbricadas: a forma como ele foi socialmente construído por seus moradores e como se estabeleceu a sua relação com São Carlos.Num segundo momento, e a partir disso, descrevo duas redes de relacionamento, o modo como se diferenciam no bairro (segundo o que é importante ali) e nas suas relações com a cidade.Migrantes na Periferia Urbana: redes sociais e a construção do bairro Ponto Urbe, 1 | 2007 1 O bairro Cidade Aracy 4Eu nunca havia ido ao bairro até o início de minha pesquisa de campo.Quando fui pela primeira vez, de ônibus, não sabia se o reconheceria, se saberia "quando chegou".Para minha surpresa, quando a cidade parece acabar, avista-se, ao longe, e "lá embaixo" o bairro.Ligado à cidade por uma espécie de serra, uma estrada "torturosa", nas palavras de um antigo morador, ele está fisicamente isolado da cidade, ligado a ela pela serrinha, como é conhecida por todos.Já de longe fiquei surpresa pelo seu tamanho, muito maior do que eu imaginava.5 Segundo informações da Secretaria da Habitação da Prefeitura de São Carlos, o bairro conta com 25 mil pessoas se considerarmos apenas o Cidade Aracy; se juntarmos a ele os bairros Presidente Collor e Antenor Garcia, pode-se falar em 40 mil pessoas.Ocorre que esse espaço afastado de que falo é constituído oficialmente por três bairros: o Cidade Aracy, o Presidente Collor e o Antenor Garcia.Além disso, o Cidade Aracy divide-se ainda em Aracy I e Aracy II, divisão essa que não é oficial, mas todos conhecem, não apenas os moradores, mas qualquer um que tenha contato com o bairro.6 Minha opção inicial foi abrir-me para todos os bairros, para que com o tempo fosse feito um recorte significativo.Mesmo porque, quando se trabalha com redes sociais, elas podem não estar associadas a um espaço físico delimitado (Bott, 1976) 3 .Os relacionamentos sociais importantes de uma pessoa do Aracy poderiam acontecer com moradores do Presidente Collor, e assim não seria interessante fazer qualquer recorte prévio.Teria que deixar-me conduzir pelas próprias redes sociais que eu pudesse ali encontrar.Para os propósitos deste artigo, importa ressaltar que está sendo considerado o "Grande Cidade Aracy" -conforme ouvi algumas vezes.7Para falar sobre o Aracy, não precisarei recorrer muito à literatura, pois foi ao longo do contato direto que entendi seu surgimento, sua formação e história.Obtive informações tanto por meio de conversas com moradores que acompanharam sua constituição, como por conversas com pessoas da prefeitura envolvidas em seu processo de formação.Foi difícil encontrar detalhes sobre sua história na bibliografia.Mesmo os trabalhos realizados no bairro, desde os mais acadêmicos até os de extensão, trazem poucas informações. 8Alguns dados sempre aparecem: o bairro formou-se de maneira totalmente inadequada, pois se trata de uma área de mananciais, que não possui condições propícias para uma ocupação irrestrita, a qual tornou-se ilegal em virtude de o bairro estar numa área de proteção ambiental (Sanchez e Dal Bello, 2001).Mas, como sua ocupação foi incentivada e produzida por um forte agente especulador do mercado imobiliário, o bairro acabou sendo ocupado mesmo que de maneira imprópria.9 Constituiu-se do modo com que geralmente se constituem bairros periféricos, com uma série de irregularidades que hoje a Secretaria de Habitação, da Cidadania e a Prefeitura em geral têm buscado resolver.O Núcleo de Pesquisa e Documentação do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar (1994) apontou o bairro como um dos mais carentes quanto à educação, saúde, segurança, renda familiar e inserção no mercado de trabalho.Enfim, a história registrada apontava para irregularidades, problemas e deficiências.
Source: Ponto Urbe
Language: Portuguese
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W1991598280
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