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Crítica e crise

Year: 2000
Type: article
Abstract: Quem atentar às datas de edição de Kritik und Krise, de Reinhart Koselleck, poderá surpreender-se.A edição francesa é de 1979, exatos vinte anos após a primeira publicação do texto, na Alemanha.A cuidadosa tradução brasileira, publicada há dois anos, mais que dobra o atraso, sobretudo se levarmos em conta que, na origem do livro, está a tese de doutorado do autor, defendida em 1953.Esse intervalo de quase meio século parece prejudicar o texto, tanto mais porque, na sua primeira página, Koselleck liga seu tema -a crítica que a burguesia fez ao absolutismo, ao longo do século XVIII -à "atual crise mundial", uma óbvia referência, na época, à guerra fria.A conclusão que se poderia tirar disso é a de que o livro chegou ao Brasil com seu prazo de validade vencido e só tem interesse à história do debate ideológico do pós-guerra.Há textos, porém, que se beneficiam com o passar dos anos, como é o caso aqui.Ao contrário do que poderia ter ocorrido, a demora de seu aparecimento entre nós reverteu em benefício para o livro, cujas implicações permanecem atuais.É o que procuraremos mostrar, após situarmos de forma mais precisa o objeto da análise de Koselleck.I. O CAMPO TEMÁTICO É sabido que, no bojo das transformações por que passou a Europa no século XVIII, o Esclarecimento se apresentou como programa teórico e pedagógico que, contrário a toda forma de dogmatismo, identificou na razão a única instância normativa capaz de levar a bom termo o avanço da humanidade.Esta predisposição exprimiu-se no projeto de submeter todos os terrenos da cultura -a religião, a arte, a moral, a sociedade e, finalmente, a política -ao crivo da crítica.Esse ideal normativo, aliado à noção de progresso, impulsionou as transformações que, do despotismo esclarecido ao terror, fizeram com que o ideário modernizador da burguesia suplantasse o Absolutismo.O ponto que logo salta aos olhos com a leitura das primeiras páginas do livro de Koselleck, e que lhe dá a abrangência reivindicada por sua menção inicial à guerra fria, reside na tese de que esta conjunção da crítica ao progresso, armada sobre o vínculo entre história e utopia, não se limitou ao século das Luzes.Ela também teria presidido o entendimento da política da Revolução francesa em diante.Não é difícil imaginar as vertentes teóricas visadas pela problemática para a qual Koselleck reivindica desdobramentos contemporâneos.Tanto o marxismo, que viu no desenvolvimento do capitalismo o germe do novo, prenunciado na universalidade social inscrita no proletariado, quanto o liberalismo, que viu na persecução de fins particulares dos indivíduos a mola que proporcionaria o bem estar de toda a humanidade, concebem os conflitos sociais como a expressão de categorias históricas, cujo desenvolvimento projeta as contradições do presente em um futuro próximo, no qual elas teriam entrevista uma superação.É nesse sentido amplo que se pode dizer que a tradição marxista e a tradição liberal comungam da mesma interpretação da política.Uma e outra tomam-na como lugar da passagem do velho ao novo, do particular ao universal, do objeto da crítica ao tema da utopia.Daí tornar-se palpável a abrangência com que Koselleck investe seu projeto: guardadas as diferenças de praxe, liberalismo e marxismo revelam uma proximidade recíproca, um parentesco analítico que, em sua origem, remontaria a conceitos surgidos pela primeira vez no Iluminismo.Eis o intuito de retornarmos ao século XVIII.Nele teria sido forjada a compreensão ainda hoje dominante da política.Com um acréscimo, que o próprio título antecipa às análises da inteligência burguesa propostas no livro: ao assimilar crítica e crise, Koselleck está convencido de que os conceitos mobilizados pelos iluministas na denúncia do absolutismo são reféns de uma lógica dualista, que presidiria, a título de pressuposto implícito e impensado, o advento político da burguesia.Como se vê, há algo de novelesco na tese que iremos reconstruir.Pois dali onde o Esclarecimento tirou a justificativa para pôr abaixo uma estrutura política carcomida,
Language: Spanish
Subfield: History
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2000947072
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