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Trabalho conceitual em psicologia: pesquisa ou "perfumaria"?

Year: 2012
Type: editorial
Abstract: TRABALHO CONCEITUAL EM PSICOLOGIA: PESQUISA OU "PERFUMARIA"?A historiografia positivista da psicologia prega como um dos fatores responsáveis pela independência científica da disciplina psicológica o divórcio com a filosofia e o compromisso exclusivo com o método experimental.Outra versão é apresentada pela historiografia contemporânea da Psicologia: o pai da psicologia científica, Wilhelm Wundt (1832-1920), nunca preconizou essa separação, muito pelo contrário, advertiu que tal rompimento reduziria o psicólogo a um mero aplicador de técnicas.Mais do que isso, Wundt não defendeu um monismo metodológico pautado no método experimental, pois a "psicologia dos povos" requeria outros procedimentos e técnicas para o estudo dos fenômenos culturais (Araújo, 2010).Não obstante, já é sabido qual dessas versões tornou-se a história oficial e dominante da Psicologia.A evidente predileção pela historiografia positivista da Psicologia ecoa na contemporaneidade.Uma de suas expressões é a ênfase na pesquisa factual em detrimento da pesquisa conceitual.O exemplo mais paradigmático dessa tendência é a ideia de que a expressão lídima da pesquisa científica é aquela pautada pelo método experimental, ou quase experimental.Essa tese foi criticada por outras tendências metodológicas, sob a alegação de que o método experimental não seria capaz de apreender a complexidade do fenômeno psicológico em suas diferentes expressões.A despeito da pertinência e correção dessa crítica, ela ainda não é suficiente para abalar o cerne da questão, pois, não raro, a discussão é deslocada para qual método é mais adequado para investigar o objeto da Psicologia.O privilégio do fato sobre a teoria permanece incólume; a ideia de que pesquisa é pesquisa factual, seja por que método for, subsiste com diferentes roupagens.Talvez seja o caso de atualizar este certeiro diagnóstico de Wittgenstein (1975): "existem na psicologia métodos experimentais e confusão conceitual" (p.226), dizendo que na psicologia existem métodos (experimentais e não experimentais) e confusão conceitual.Mesmo com a permanência de alguns clichês, tais como o de que a teoria é importante para a prática, há evidências informais e outras institucionalizadas que endossam o desequilíbrio epistêmico em prejuízo da pesquisa conceitual.Diz-se, por exemplo, que a pesquisa conceitual, a rigor, não é um tipo de pesquisa, pois não é orientada por um método.Outros, de modo mais jocoso, alegam que é superficial e subjetiva, uma vez que lida com a interpretação e não com a observação.Outros ainda reclamam que a "pesquisa" conceitual debate aquilo que já está consagrado e canonizado pela comunidade científica, como se fosse uma "pesquisa" que tratasse de truísmos.Ora, os fundamentos teóricos e epistemológicos da Psicologia já estão prontos, basta erigir o edifício científico sobre eles.Não abramos a "caixa preta" da história da constituição dos conceitos e fatos psicológicos.Não discutamos os compromissos filosóficos das teorias psicológicas, pois o tempo urge e precisamos resolver os problemas que batem à porta da Psicologia.Essas parecerem ser a lógica e recomendação vigentes.Dificilmente alguém brada essas assertivas aos quatro ventos, mas basta uma olhadela nas propostas de mudança dos currículos de Psicologia para perceber que as disciplinas teóricas estão perdendo espaço para as de caráter mais técnico.Até mesmo as disciplinas de pesquisa, tão imprescindíveis a uma boa formação e atuação do psicólogo, geralmente apartam a discussão metodológica da teórica; ou não incluem a pesquisa conceitual ao lado de outras atividades que usualmente caracterizam o método científico, como a observação e o domínio de técnicas de obtenção e compilação de dados.É como se os procedimentos metodológicos pudessem transitar de modo independente das teorias que lhes dão sustentação, e sentido aos dados obtidos por meio deles.Basta conferir as programações dos congressos de psicologia para notar quais são as preocupações em voga.As objeções à pesquisa conceitual também parecem ter ganhado apoio institucional.Nota-se uma restrição à publicação de artigos teóricos em periódicos bem avaliados.(Há exceções, como, por exemplo, esta revista, Psicologia em Estudo, que admite em sua política editorial a publicação de estudos teóricos, entendidos como resultado de pesquisa conceitual).Além disso, é difícil estabelecer linhas de pesquisa em programas de pósgraduação que privilegiem esse tipo de pesquisa.Os alunos que esboçam a vontade de trilhar essa vertente são geralmente desmotivados: há um número escasso de pesquisadores que orientam nessa área; os concursos públicos dificilmente destinam vagas para Fundamentos da Psicologia; os financiamentos para esse tipo de
Language: Portuguese
Field: Psychology
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2003222123
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