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O teatro do negro no Brasil e nos Estados Unidos

Year: 1996
Type: article
Abstract: Para enraizar-se outra vez às margens do Jordão não bastou aos judeus a identidade fundada nos costumes e no livro sagrado.Foi preciso que restaurassem uma língua esquecida para operar como um sistema de representação capaz de amalgamar à realidade da nação a idéia de povo.É bem outra a situação dos povos negros.A diáspora não lhes deixou sequer, como resíduo, a memória de uma língua comum.O vasto continente de onde foram arrancados pode ser um mito edênico, mas não um território ao qual possam retornar.Restou-lhes contudo um cerne, sob a forma de um sistema de representação não-verbal sobrevivendo nos gestos, nos ritmos e nos ícones.É a partir desse substrato comum que os povos negros constituem estratégias de preservação da sua identidade sob o domínio da cultura branca.Em A Cena em Sombras o teatro é considerado como o lugar privilegiado para o exercício das práticas de auto-afirmação e sobrevivência.Leda Maria Martins realiza um trabalho de prospecção ao comparar a cena brasileira e o desenvolvimento histórico do teatro do negro nos Estados Unidos.Examina o que foi efetivamente realizado e sugere uma potência.Pode-se ir muito mais longe.Por enquanto a tarefa da autora é a de "apontar para algumas possibilidades teóricas para a interpretação e volição crítica desse teatro, utilizando a teatralidade da cultura negra como um conceito operacional, que se manifesta no teatro em particular e na cultura afro em geral".Para abrir o caminho ao tema o livro enfrenta o espinhoso problema da dissimulação que, no contexto brasileiro, cerca a questão do negro: "Do que se fala quando se fala negro?Da cor do dramaturgo ou do ator?Do tema?Da cultura?Da raça?".Ao propor as perguntas a autora admite como seu campo de investigação um território minado por evasivas.Através da indefinição conceitual a cultura negra procura os intervalos para se reafirmar.Da mesma forma, quando um conceito se fecha atribuindo valor negativo ao negro, o antagonismo claro oferece um fulcro para a resistência.É preciso, portanto, falar de tudo, porque são esses entrecruzamentos que formam, em última análise, a "tessitura da representação".
Source: Revista USP
Language: Portuguese
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2009163414
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