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Entrevista com professor Nicolau Sevcenko

Year: 2012
Type: editorial
Abstract: Filho de imigrantes russos, o historiador cresceu no bairro operário da Vila Prudente, de concentração eslava.Nos trajetos urbanos que desde cedo teve de fazer entre casa, trabalho e estudos, construiu uma relação visceral e um ponto de vista descentrado sobre a capital paulista, como nos conta na entrevista.É essa perspectiva, entre outras visadas sobre a cidade e os processos históricos, que Nicolau Sevcenko exprime em seus livros, Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República(1983); A revolta da vacina (1983); Orfeu extático na metrópole: São Paulo nos frementes anos 20 (1992) e A corrida para o séc.XXI: no loop da montanha-russa (2001). 2 A entrevista deu continuidade à conferência A Rede e o Labirinto: experiências da imaginação refratária na cultura dos anos 1950 e 1960, organizada pelo NAU e pelo Departamento de Sociologia em novembro de 2011.A conversa fiou-se por vários temas que a palestra e seus livros abordam com maestria, como tecnologia, urbanização, cultura e arte trazendo um diálogo seminal entre as ciências humanas e vários insights às etnografias que se debruçam sobre a metrópole.Convidamos o leitor a apreciar esse encontro.3 *** 4 Você poderia falar um pouco da sua trajetória de vida a partir dos espaços urbanos em que você viveu e como isso, de certo modo, está presente na sua formação intelectual?5 Nicolau: Eu cresci lá naquele contexto da zona leste, no bairro da Vila Prudente, num subdistrito chamado Quinta das Paineiras.O nome é bonito, mas era um subdistrito industrial.É um enclave que ficava entre a Indústria Ford, a indústria Vemag e a indústria General Motors.Era uma área de altíssima industrialização ao longo da várzea do Tamanduateí, porque ele serviu como esteio da estrada de ferro, a Santos-Jundiaí, portanto conexão direta com o Porto de Santos.Foi o que fez com que as indústrias exportadoras se assentassem ao longo da linha do trem, e aí surgiram bairros operários Entrevista com professor Nicolau Sevcenko Ponto Urbe, 10 | 2012 7Mas até muito tarde eu vivi confinado, praticamente até entrar na Universidade de São Paulo.Eu vivi confinado naquele contexto imigrante e operário; e pra eu ir daquele bairro operário pro fim do mundo da Cidade Universitária no bairro do Butantã, quando não havia uma estrutura de conexão entre essas duas partes da cidade, era um martírio muito grande.Era uma base de duas horas ou duas horas e meia pra ir e duas ou duas horas e meia pra voltar.Quatro a cinco horas por dia dentro do ônibus, e era o tempo que eu usava pra fazer minhas leituras, pra preparar as aulas, e eu me adaptei a ler no ônibus, o que é uma ideia péssima, porque a vibração, o movimento provoca deslocamento de retina.Nem gosto de pensar no dano que eu causei para as minhas vistas, hoje abaladíssimas, por conta dessa vida de viver lendo dentro de ônibus.Mas era a única possibilidade de aproveitar aquele tempo.
Source: Ponto Urbe
Language: English
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2057525939
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