Year: 2000
Type: article
Abstract: A presente síntese consiste no registro, exame e avaliação, do ponto de vista literário, de uma seleção de obras escritas por judeus nascidos ou radicados no Brasil, publicadas em português e versando tópicos judaicos, explicitamente assim identificados nos textos.Na constituição da literatura judaica brasileira percebem-se dois períodos políticoadministrativos bastante diferentes quanto aos efeitos exercidos no domínio da escrita: o Colonial (1500-1822) e o Independente (de 1822 em diante).No primeiro período, sob domínio português, predominou a ausência de uma literatura judaica explícita, ainda que judeus cohabitassem o território colonizado pelos portugueses desde o princípio do estabelecimento lusitano na América.A eventual contribuição literária do povo mosaico aos quadros literários brasileiros é percebida não tanto pelos recursos textuais quanto pelas origens israelitas dos escritores, ainda que fossem remotas e aparecessem obliteradas nas suas obras.No segundo período, que corresponde à época nacional e independente de Portugal, a emergência da participação judaica explícita nas letras brasileiras deu-se principalmente depois da Segunda Guerra Mundial.A esta fase da evolução literária judaica no país, registram-se a predominância do tema imigrante e a recorrência da memorialística.O exercício do direito de escrever a respeito de suas origens israelitas foi posto em prática no Brasil muito depois que os judeus se estabeleceram pela primeira vez no país, o que ocorreu juntamente com o domínio lusitano.De acordo com pesquisas, é possível que as caravelas de Pedro Álvares Cabral tenham trazido judeus a bordo, que se estabeleceram na nova terra desde o início da sua história (Mello, Gente da).Muitos deles seriam navegantes à sua revelia, do mesmo modo como, contra seu livre arbítrio, foram encastoados no cristianismo, uma religião estranha às suas tradições como judeus ibéricos.Inaugurando os caminhos selváticos, costeiros e aquáticos nas terras indígenas, aquele contingente não deixou sinal literário de seus possíveis hábitos religiosos ou culturais que o ligassem ao judaísmo, qualquer que tivesse sido sua modalidade na época colonial.Tampouco há qualquer escrita de parte daqueles portugueses, diferenciados por seus patrícios como "cristãos-novos", sobre o efeito que tenham sofrido depois da forçada mudança de religião.Praticamente arrancados de Portugal para as selvas brasilienses, aqueles homens não legaram nenhuma documentação literária, direta e explícita, que refletisse o convívio dos judeus, ou ex-judeus, no ambiente luso-brasileiro.A ausência de tal escrita na época colonial não altera o fato de que alguns cristãosnovos, assim identificados por executivos da Inquisição, tenham sido poetas e escritores REGINA IGEL inaugurais da literatura brasileira, como indicados por historiadores literários.Três homens de origem judaica, certamente um número diminuto em proporção à relação de cristãosnovos, destacaram-se nas letras do período colonial: Bento Teixeira (provavelmente nascido em 1561-1600), Ambrósio Fernandes Brandão (faltam datas precisas sobre seu nascimento e morte, mas calcula-se que tenha vivido entre 1550 até pelo menos 1618) e Antonio José da Silva, o Judeu (1705-1739).A ausência de judeus manifestos nas letras coloniais luso-brasileiras encobre o fato de que, como observa Rubens Ricupero, no Prefácio a Imigrantes Judeus/Escritores Brasileiros, "nenhum país das Américas teve, como o Brasil, começos tão intensamente marcados pela presença e ação do povo judeu.A afirmação surpreenderá quem pensa que o componente judaico na vida brasileira é recente, deste século, e de pouca conseqüência histórica" (Ricupero, "Prefacio", XVII).O alcance histórico da presença judaica nos primeiros séculos da colonização portuguesa no Brasil, indicado por Ricupero, é material de pesquisa e extensos estudos em outra área da cultura brasileira.No campo das letras, como as restrições impostas pela Inquisição impediram demonstrações de judaísmo em territórios da ocupação portuguesa, pouco se pode captar, em nível textual, do possível judaísmo acaçapado vivenciado pelos três escritores indicados.No entanto, ao longo dos méritos e deméritos literários dos seus escritos, esses autores estão registrados na história do país como pertencentes ao diminuto contingente de judeus luso-brasileiros que ergueram, ainda que com gesto quase imperceptível, as barreiras dos rigores inquisitoriais.Suas pegadas judaicas são, no entanto, extremamente leves e, por isto, podem ser vistas mais como resíduos de uma vivência cripto-judaica no país do que como monumentos literários ou documentais.Até fins do século XIX, os judeus mantiveram-se à distância das costas brasileiras pelo receio imposto pelas sombras da Inquisição que, passados séculos depois de suas atividades, ainda amedrontavam descendentes de judeus e cristãos-novos.O afluxo de judeus foi-se estabilizando gradualmente ao longo dos primeiros anos no século XX, com as exceções impostas por leis anti-imigratórias, principalmente no período dominado por Getúlio Vargas (1930)(1931)(1932)(1933)(1934)(1935)(1936)(1937)(1938)(1939)(1940)(1941)(1942)(1943)(1944)(1945) (Carneiro, O anti-semitismo).Depois deste longo período de congelamento imigratório, sucessivas ondas de expatriados, procedentes principalmente da Rússia, do leste e do centro da Europa vão compor as diversas comunidades judias no Brasil; são os chamados judeus asquenasitas, com uma representação literária expressiva de sua maioria numérica.Uma minoria, constituída de judeus sefaraditas, descendentes de ibéricos, provém de países do norte da África, como Marrocos, Egito e Argélia; em número mais restrito, estão os imigrantes judeus orientais, como se codificam os israelitas nascidos em países do Oriente Médio, como a Turquia, o Líbano e a Síria.Estes dois últimos grupos, à altura desta escrita, têm pouca representação no quadro literário judaico brasileiro, seja por sua esparsa demografia, seu isolamento geográfico ou data de chegada, visto que os sefaraditas se instalaram e se desenvolveram como comunidade, principalmente no Amazonas
Source: Revista Iberoamericana
Author: Regina Igel
Institution: University of Maryland, College Park
Language: Portuguese
Subfield: Literature and Literary Theory
Field: Arts and Humanities
Domain: Social Sciences
Open Access status: hybrid
OpenAlex ID: W2057681996
