Year: 2001
Type: article
Abstract: 2000-2001). Editado em 2003.Até a década de noventa, os estudos de cultura material tiveram, na França, uma trajetória inconstante e aleatória.Alguns esforços são dignos de nota, mas não contribuíram de modo decisivo para a constituição de um campo de pesquisa.Faltaram, ou foram débeis, os requisitos elementares para tanto -a busca de instrumentos metodológicos, o debate a fim de definir ou afinar os conceitos teóricos, o exercício aplicado a casos particulares -tudo o que, enfim, permite definir um domínio de saber.Por outro lado, as tentativas restaram isoladas em campos que nem sempre se comunicaram abertamente -do pensamento filosófico à sociologia, passando pela historiografia -, o que contribuiu para a pulverização da reflexão.É sintomático deste quadro o fato de o livro de Baudrillard, Le système des objets (1968), ter-se tornado uma referência constante e, ao mesmo tempo, ter permanecido como o produto de uma tendência particular, aquela da semiologia, pronta a oferecer uma chave de leitura aos diversos fenômenos da vida socialda palavra à imagem, passando pelos objetos -, sempre a partir de métodos e conceitos cujas origens se localizavam na lingüística.Apesar de algumas diferenças importantes, o Théorie des objets de Moles (1972) compartilhava com a obra de Baudrillard duas características essenciais: a preocupação em descrever o papel das coisas materiais na sociedade moderna e, sobretudo, a valorização da função sígnica dos objetos.Por outro lado, no domínio historiográfico, alguns esforços prolongaram a sugestão de Braudel de inserir no horizonte de uma história econômico-social a dimensão palpável da "civilização material".No entanto, mesmo no interior de uma tendência caracteristicamente dinâmica como a Escola dos Annales, seria preciso chamar a atenção para certos limites.Leia-se o capítulo de Pesez (1978) sobre a cultura material no volume programático editado por Jacques Le Goff, Roger Chartier e Jacques Revel, e se perceberá quer a ausência de conceitos satisfatórios dos elementos implicados, quer a debilidade das propostas analíticas apresentadas, em geral derivadas de uma transferência um tanto irrefletida dos procedimentos da arqueologia para o campo da história.Os estudos monográficos, por seu lado, parecem ter assimilado o apelo a uma atenção à cultura material, sobretudo como uma sugestão de renovação das temáticas da "nova história".Assim, a obra bastante característica de Roche (1997) sobre o nascimento das formas modernas de consumo a partir do século XVII mobiliza intensamente o universo da cultura material (a casa, as estruturas de iluminação, aquecimento e abastecimento de água, os móveis e objetos, as vestes, os alimentos) com o intuito de estabelecer as novas articulações da vida cotidiana, as alterações nos padrões de sociabilidade, em face das transformações no sistema de produção, circulação e consumo.No entanto, a exploração dessa fronteira não parece ter exigido, e isto é o mais surpreendente, nenhuma renovação no arsenal analítico tradicional do historiador: através das páginas do livro, são os documentos escritos que são mobilizados para dar conta da relação entre sociedade e matéria.A operação historiográfica não se alterou substancialmente com a renovação do temário; dito de outro modo, o reconhecimento da cultura material como parte essencial do fenômeno histórico não implicou sua inserção decisiva como documento no processo de produção do discurso historiográfico.Mesmo se, com os Annales, os estudos de cultura material distanciaramse da abordagem tradicional da história das técnicas, restringiram-se finalmente ao papel de complemento à história das mentalidades.Na última década, contudo, um elemento novo foi introduzido no quadro.Partindo desta vez da antropologia, um movimento propõe relançar os estudos de cultura material.Seu caráter, à diferença dos anteriores, é orgânico, ao menos o suficiente para que se possa falar de um grupo de estudiosos que partilham certa gama de interesses e preocupações.Uma organicidade que se traduz em institucionalização: congregação dos pesquisadores em torno de uma Universidade (Paris V -René Descartes), constituição de um grupo de trabalho (Matière à Penser, fundado em 1995), organização de seminários e colóquios, divulgação editorial dos trabalhos (não sendo desinteressante notar a concentração das publicações em um editor do Quartier Latin, L'Harmattan; o volume sob resenha, publicado pela PUF, fazendo as vezes de exceção, mas também sinalizando uma penetração mais larga do grupo).Um movimento, por fim, francês: no sentido de que procura se enraizar em uma tradição antropológica local (aquela de Mauss, a que se esforça, não obstante, por superar, como veremos), marcando as diferenças com os estudos de cultura material do mundo anglo-americano (em particular, a tradição dos "american studies") mesmo se se mantém aberta ao diálogo.Alguns nomes são recorrentes, como Céline Rosselin, Marie-Pierre Julien, Isabelle Garabau-Moussaoiu e, sobretudo, Pierre Parlebas e Jean-Pierre Warnier.Parlebas, sociólogo dos jogos e dos esportes, é o principal teórico de um domínio caro ao grupo: a motricidade, a problemática do comportamento corporal e de sua articulação com o universo físico.É, no entanto, a Jean-Pierre Warnier que cabe o papel de principal sintetizador dos argumentos teóricos e metodológicos da corrente.Ao analisar sua mais recente obra -Construire la culture matérielle -, o que se propõe aqui é explicitar seus postulados e seus procedimentos analíticos, bem como, em um segundo momento, avaliar criticamente as suas potencialidades e suas limitações, sempre sob a óptica das particularidades da pesquisa em história.
Author: Marcelo Rede
Institution: Universidade Federal Fluminense
Language: Portuguese
Subfield: Literature and Literary Theory
Field: Arts and Humanities
Domain: Social Sciences
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2060909552
