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Viajantes Do Imaginário: a América Vista Da Europa, Séc. Xv-xvii

Year: 1996
Type: article
Abstract: A maneira mais adequada de se aquilatar em suas dimensões exatas a importância das realizações artístico-científicas de Albert Eckhout, Frans Post, Gerg Margraf e dos demais artistas de Maurício de Nassau, e o papel inovador que lhes coube no que respeita ao rigor documental de suas imagens e à fidelidade com que se dedicaram a fixar habitantes, animais, plantas, cenários e demais coisas do Novo Mundo, no qual trabalharam de 1637 a 1644, será decerto compará-las com o que até então, e por cerca de século e meio, vinha sendo feito por alguns poucos cartógrafos, desenhistas e pintores europeus, o mais das vezes operando a distância (e portanto pintando "de ouvido"), guiados por desenfreada imaginação e enganados por todo tipo de superstição e preconceito -uma herança da Antigüidade clássica ou dos tempos medievais -, sem perceberem onde começa a realidade e termina a lenda.A última década do séc.XV e as primeiras do séc.XVI presenciaram, a par de uma revolução sem precedentes no campo dos conhecimentos geográficos, da navegação marítima e da cartografia, o primeiro e mais durável contato com a ampla escala entre os europeus e os habitantes de regiões remotas da Ásia, África e América; ao mesmo tempo em que isso se passava, profundas mudanças conceituais ocorriam na arte da pintura, que deixava de ser dócil instrumento a serviço do papa ou do rei para, sob o influxo do Humanismo, voltar-se para a inquirição da natureza -como o exemplifica, de modo insuperável, a obra de Leonardo da Vinci.Não obstante tais desenvolvimentos, ainda por muito tempo continuaria prevalecendo na Europa, com relação ao Novo Mundo (e não só entre o povo miúdo mas também entre homens de ciência), certa visão fantasiosa que, para muito além do que os olhos podiam ver ou a razão admitir, alimentava-se de narrativas extravagantes de viagens imaginárias ou sobrenaturais, como as descritas na Navegatio Sancti Brendani Abbatis, nas Coisas Inacreditáveis para além de Tule, na Cosmographia de Ético, na Ymago Mundi de Pierre D´Ailly ou nas Viagens de John Mandeville -entre tantas outras obras do gênero, todas populares na época dos Grandes Descobrimentos (1).Nessas regiões maravilhosas para além de Tule ora estaria situado o Paraíso Terrestre, com seus campos fertilíssimos, um clima de perene primavera, a Fonte da Juventude, a Árvore do Bem e do Mal e o grande rio dividido em quatro braços, ora a terra inóspita, despovoada ou, pior, habitada por seres disformes ou monstruosos -arimastos dotados de um só olho na testa, artabaritos sem boca, ciápodos de uma única perna bifurcada em dois pés (2), blêmios sem cabeça com olhos nas espáduas, e mais cinocéfalos, andróginos, pigmeus, grifos, antropófagos e, numa palavra, toda uma horripilante fauna subumana à qual se referem, em descrições que se pretendem realistas, escritores de autoridade e seriedade indubitáveis, como Heródoto, Plínio, o Antigo, Santo Agostinho, Solino e Isidoro de Sevilha entre tantos outros (3).Não admira assim que Colombo, na carta em que dava contas do que pudera observar em sua primeira viagem, esclarecesse, não sem alívio: "Não encontrei os monstros humanos que muitas pessoas esperavam que eu encontrasse.Pelo contrário, toda a população é muito bem feita de corpo.Não são negros como na Guiné, e seu cabelo é liso".Monstros existiram, porém (como lhe haviam informado), no interior de Cuba, homens de um único olho ou cinocéfalos que se alimentavam de carne humana, iguais talvez àqueles que na década de 1530 Jacques Cartier sustentava viverem na cidade fantástica de Saguenay, na América do Norte, ou aos homens de olhos nos ombros que, em 1596, Walter Raleigh assegurava habitarem certa região da atual Venezuela.Um desses hominídeos acéfalos, ao lado de toda uma vasta série de outros derivados das ilustrações das Etymologiae de Isidoro de Sevilha, do séc.VII, foi "retratado" em 1493 na Crônica de Neremberg pelo mestre de Dürer, Michael Wohlgemut, e quase dois séculos e meio mais tarde ainda servia para exemplificar os habitantes da América Central, numa ilustração do Moeurs des Sauvages Amériquains Comparées aux Maoeurs des Premiers Temps (1724), do jesuíta Joseph-François Lafitau.
Source: Revista USP
Language: Portuguese
Subfield: History
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2069020143
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