Year: 1995
Type: article
Abstract: O TRABALHO DE HOFFMANN (1994), A insegurança alimentar no Brasil, evidencia que "o problema da fome no Brasil não se deve à pouca disponibilidade global de alimentos, mas sim à pobreza de grande parte da população".No texto, o autor também afirma que as políticas de combate à fome deverão ter como tônica o fortalecimento dos direitos (entitlements) dos pobres.Ou seja, o problema da fome no Brasil não é, primordialmente, uma questão de oferta, mas, basicamente, de demanda, dada a enorme desigualdade existente no país e a conseqüente marginalização de grande parte da população.Embora concordemos com este posicionamento que enfatiza o lado da demanda, ou seja, da renda, existem questões ligadas à oferta de alimentos relevantes para o debate sobre a segurança alimentar.O intuito destas notas é discutir algumas destas questões.Assim, neste texto abordam-se os seguintes aspectos da produção agrícola no Brasil: a segunda parte trata do comportamento da oferta agrícola em geral, com destaque para a oferta e para a disponibilidade per capita de alimentos; a terceira é dedicada ao estudo de cenários sobre a demanda de alimentos e perfil da oferta; por fim, a quarta parte apresenta a conclusão geral sobre a oferta de alimentos e acrescenta algumas observações sobre o tema. Oferta de alimentos no Brasil: desempenho e previsõesComportamento da oferta agrícola no Brasil: capacidade de resposta aos preços e transformações A indagação sobre a capacidade de resposta da oferta agrícola aos preços no Brasil é uma velha questão, muito em voga na década dos 50 e na primeira metade dos anos 60.Na época, discutia-se a hipótese da inelasticidade preço da oferta, decorrente da estrutura fundiária caracterizada por forte concentração e predominância do latifúndio improdutivo e do minifúndio de subsistência.As interpretações marxista e estruturalista, embora por razões diferentes, propugnavam romper tal situação através de uma reforma agrária que, gerando grande número de pequenos proprietários, propiciaria a continuidade do desenvolvimento industrial.Dessa forma, tanto garantir-se-ia mercado para os bens produzidos pela indústria, como possibilitar-se-ia uma resposta adequada da oferta -principalmente de alimentos -às necessidades do processo de desenvolvimento, reduzindo-se as pressões inflacionarias.Como é sabido, o tema provocou grande polêmica e suscitou uma série de pesquisas que buscou testar a hipótese da inelasticidade.Os resultados obtidos mostraram a não constatação de evidências empíricas para a sustentação da hipótese.Em suma, as evidências obtidas por Barbosa & Santiago (1992) e Pastore (1968), autores que estudaram o tema, indicaram que a agricultura brasileira tem adequada capacidade de resposta aos estímulos do mercado.Além da colocação sobre a capacidade de resposta da oferta agrícola, parece-nos interessante evidenciar que a agricultura brasileira, nas três últimas décadas, experimentou forte processo de transformação.Este processo, conhecido na literatura como modernização conservadora, embora excludente e concentrador, provocou expressivos e positivos resultados nos campos da produção e da agroindustrialização, resultando na mudança do padrão extensivo tradicional para um novo padrão intensivo, no qual o rendimento (produtividade da área) tornou-se a principal fonte de crescimento, superando a área cultivada.A respeito, Alves & Contini (1992), considerando dados para as 15 principais culturas no período 1940/50 a 1970/80, mostram que o crescimento da produção, nas quatro décadas estudadas, foi expressivo e superior ao crescimento da população; evidenciam também, considerando as fontes de crescimento da produção, que a participação da produtividade da área foi modesta na primeira década (1940/50, 17%), acelerou-se nas seguintes (1950/60, 27,5%; 1960/70, 35,3%), tornando-se o principal fator explicativo na última (1970/80, 59,3%).Considerando-se especificamente a década atual, informações obtidas junto à Conab sobre a evolução da área plantada e produção mostram queda da área e oscilações, com tendência a crescimento, da produção.A safra 87/88 correspondeu a 42,8 milhões de hectares plantados para uma produção em torno de 66 milhões de toneladas de grãos, enquanto a safra de 93/94 ocupou uma área de 36 milhões de hectares e atingiu 75 milhões de toneladas.Tais evidências permitem afirmar que a simples utilização da área anteriormente plantada implicaria expressivo aumento da produção.
Source: Estudos Avançados
Author: José Juliano de Carvalho Filho
Institution: Universidade de São Paulo
Language: Portuguese
Subfield: Economics and Econometrics
Domain: Social Sciences
SDGs: Zero hunger, No poverty
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2113197949
