Uma almadia entre as duas margens da língua arquitectura: a essência do projecto reflexões de São Paulo
Year: 2011
Type: article
Abstract: E ele me passava um pensamento: nós, os da costa, éramos habitantes não de um continente mas de um oceano.Eu e Surendra partilhávamos a mesma pátria: o Índico.E era como se naquele imenso mar se desenrolassem os fios da história, novelos antigos onde nossos sangues se haviam misturado.Eis a razão por que demorávamos na adoração do mar: estavam ali nossos comuns antepassados, flutuando sem fronteiras."Mia Couto (Terra sonâmbula) Se tomássemos o mar como metáfora da língua portuguesa, poderíamos compartilhar o mesmo sentimento do personagem do romance de Mia Couto: habitamos costas banhadas pelo oceano da lusofonia, onde é permitido navegar em busca de aproximações de pensamentos, sentimentos, formas de ver e perceber o mundo, mesmo quando essas costas estão tão distantes e possuem histórias tão diversas.Moçambique é um país costeiro -2.795 km de costa banhada pelo Oceano Índico -como o Brasil fora também por muito tempo.A África portuguesa foi fundamentalmente litorânea até o momento da independência do Brasil (1822), quando se percebe um esforço da colonização portuguesa de criar cidades ou povoamentos no interior do território africano, ou seja, nas duas maiores colônias, Angola e Moçambique, que permitiria, quem sabe, o encontro dos dois territórios no coração do continente a partir desse movimento em direção ao interior, vindo de sentidos opostos: dos oceanos Atlântico e Índico.Há um Mapa cor-de-rosa de 1890, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada 1 , onde o continente africano aparece cortado por uma faixa contínua, costa a costa, representando um possível ou desejável novo império colonial português.Se chegou a ser um propósito do Estado ou apenas mapeamento das possibilidades de conexão, sob o pretexto de expedições científicas e geográficas, o fato incontestável foi o deslocamento geopolítico do empreendimento colonial do Brasil para a África, como uma forma de compensação da perda do domínio da Coroa em terras brasileiras.Em 1792, Tomás Antônio Gonzaga (nascido em Portugal, filho de uma portuguesa e de um brasileiro) teve sua pena de prisão por ter participado da Inconfidência Mineira, comutada por degredo de pósde poime ntos • p. 010-032 dez anos, em Moçambique.Segundo narra Mia Couto 2 , ele teria sido hóspede, em sua chegada, em péssimas condições de saúde, de um próspero comerciante da Ilha de Moçambique, onde convalesceu, lentamente, sob os cuidados de Juliana de Sousa Mascarenhas, filha do anfitrião.Nosso poeta retribuía a atenção de Juliana com versos trêmulos em folhas dispersas.Em 1793, os dois se casaram e nesse casarão colonial reunia-se, em grandes saraus, a gente culta da ilha, onde este "luso-brasileiro" degredado declamava poesia.Nascia, assim, o primeiro núcleo de poetas e escritores da ilha de Moçambique, então a capital da colônia, onde Gonzaga, o patrono da cadeira de número 37 da Academia Brasileira de Letras, viria falecer em 1810, como uma figura de notável prestígio social.Segundo Mia Couto, havia ali bem mais do que um casamento: "uma espécie de presságio daquilo que seria um entrosamento maior que iria prevalecer" 3 , pois, mais de um século depois, um grupo de intelectuais de Moçambique procurou definir sua moçambicanidade, em um movimento de ruptura com Portugal e Europa, com nítido sentido de auto-afirmação cultural."Necessitava-se de uma literatura que ajudasse a descoberta e a revelação da terra.Uma vez mais, a poesia brasileira veio em socorro dos moçambicanos.Manuel Bandeira foi talvez o mais importante personagem nesta segunda viagem.Com ele vinham outros como Mário de Andrade, partilhando uma pátria despatriada, mas todos tinham em comum a procura daquilo a que chamavam o "abrasileiramento da linguagem.""Tratava-se de uma escrita ocupada pela fala, da inundação da cultura popular em territórios chamados cultos." 4 Couto aponta que as experiências literárias brasileiras serviram de exemplo e repercutiram, com larga influência, nas obras de muitos escritores moçambicanos, para concluir que nossos povos, além de partilharem uma mesma língua, partilhavam também aquilo que nessa língua surgia como elemento distintivo do português de Portugal e, de forma mais profunda, outras práticas culturais e religiosas oriundas do continente africano.Promover estudos comparativos entre os países de colonização portuguesa, explorando as relações entre o território e a cultura, entre o espaço e as práticas sociais, entre a paisagem e a língua, é um desafio promissor para as escolas de arquitetura que se preocupam com indagações dessa natureza, na qual a história realiza um papel destacado na construção do pensamento contemporâneo sobre a arquitetura e o urbanismo.A leitura comparativa, como procedimento ou estratégia de pesquisa, mais do que identificar diferenças e igualdades, revela nexos que não poderiam jamais ser elaborados, porque são precisamente formulados no campo do diálogo entre culturas, a partir de elementos iluminados pelo próprio efeito da comparação.E também porque "não há um só destino, há sempre um destino atrás do outro, todos os dias, sucedendo-se ou correndo como a água do rio, e a sucessão de todos os destinos principais e paralelos é a história" 5 .A história dialógica das experiências refletidas, traduzidas e análogas, como esta: a de um esforço intelectual promovido pela modernidade para definir nossas respectivas identidades, para promover nossa emancipação cultural -uma noção que se constrói em relação, ou seja, de forma não-absoluta, visto que elaborada na busca das semelhanças e das diferenças.Em que realmente somos parecidos?Quando Maputo ainda se chamava Lourenço Marques (antes da independência de Portugal, em 1975), a cidade, hoje dita formal, já fora construída seguindo padrões urbanísticos e arquitetônicos de origem européia ou portuguesa.A cidade informal cresceu exponencialmente com a guerra civil que sucedeu à independência.São muitas as semelhanças desse trágico quadro urbano com o encontrado nas periferias das grandes (2) COUTO, M. O sertão brasileiro na savana moçambicana.
Author: Luís Antônio Jorge
Institution: Universidade de São Paulo
Language: Portuguese
Subfield: Architecture
Field: Engineering
Domain: Physical Sciences
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2169186096
