Year: 2000
Type: article
Abstract: Ler Os Rios Inumeráveis, de Álvaro Cardoso Gomes, é como entrar na Biblioteca de Babel, de Borges, ou perder-se na Biblioteca da Abadia da obra O Nome da Rosa, de Umberto Eco.Como essas bibliotecas, o romance de Gomes não é para um leitor comum, pressupõe um leitor ideal (se pensarmos aqui na Estética da Recepção), face ao diálogo que seu texto mantém com tantos outros de nossa Literatura e da Literatura mundial.Além disso, o romance de Gomes pode ser visto como uma epopéia, se o encararmos como a história da formação do povo brasileiro; centrada no herói, o mutante Fernão Matias Ribeiro.Outro valor presente no romance é a possibilidade de o lermos como uma rapsódia, um segundo Macunaíma, face aos diversos gêneros presentes: cartas, canções populares, conto e outros.Há ainda semelhanças entre os romances de Gomes e de Mário de Andrade, não só na forma, mas na ausência de caráter e na transmutação dos personagens Macunaíma e Fernão.Ambos têm o seu trajeto vertical no território brasileiro.O primeiro nasce na Amazônia e dirige-se a São Paulo em busca de sua identidade: a muiraquitã; o segundo foi aportado na Paraíba, mas o percurso da construção de seu caráter é idêntico ao do personagem de Andrade.Claro que não desconhecemos dessemelhanças, tais como o aspecto histórico, essencial em Gomes, o que não é tão relevante em Mário de Andrade.Traçamos esse rápido paralelo entre os dois heróis, inicialmente, por considerarmos relevante em virtude do anonimato em que se encontra o romance Os Rios Inumeráveis.É uma obra de grande peso, que até o momento não teve o reconhecimento devido.Não queremos tecer comparações persuasivas, tão somente valorizar o que é digno de ser valorizado.Comecemos pelo princípio.No princípio era Fernão e Gedeão, ambos paridos pelos deuses, habitavam uma terra selvagem e sem forma.E o corpo de Fernão adentrava as matas.E disse os deuses antes de partirem: "Que haja forma!".E assim se fez.O espírito de Fernão conhecendo a terra, vendo que tudo era bom, chamou-a de Terra de Vera Cruz.À terra conheceu e fecundando-a fez-se índio, boto, escravo, Senhor, traidor, plebeu e Lord.Sentindose solitário entre as estranhas formas, vendo que habitava a terra vazia de deuses, fez para si uma mulher da qual disse: "Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, pois de um varão foi formada."(Gênesis, 2:23), e a ela chamou de Fernanda, carne de sua carne.E vendo que tudo era bom, quis ser tão nobre quanto os deuses habitantes do continente que aqui o deixaram.Mas decaído do Olimpo, por haver lutado contra os deuses, a cosmogonia que repetia não passava de simulacro de suas visões celestiais, máscaras de alguém que no sensível tentava resgatar imagens do paraíso.
Source: Revista de Letras
DOI: 10.3895/rl.v0n3.2287
Author: Wilton Fred Cardoso de Oliveira
Institution: Universidade Federal de Santa Catarina
Language: Portuguese
Subfield: Literature and Literary Theory
Field: Arts and Humanities
Domain: Social Sciences
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2552196427
