Year: 1956
Type: article
Abstract: Canclido( Univ er si dad e d e São Paulo ) O cururu é da11ça praticada pelos caboclos de São Paulo , Goiás e Jv'Iato Gros s o.Em 110SSO Estado, não se encontra por tôda parte , mas e1n certas zonas velhas notadamente a periferia da Capital e a Baixa Scroca bana .Fora daí, ocorrerá p 1 or difusão recente, e tudo leva a crer que se tenha formado na primeira das áreas , mencionadas.As suas formas são várias, mas essencialmente consta de uma danca ~ rodeada em que tomam parte via de regra apenas os homens; de uma saudação aos presentes; uma louvação aos santos e finalmente desafias e1n que os contendores sempre dançando • prop , õem uns aos outros problemas, de fund ' o religioso ou p, rof ano, visando derrotar o advers.árioe exaltar a própria p. essoa.Num trabalho já bastante adiantado, procuro estudar a sua função social na sociedade caipira de , hoje, sob o impacto da urbanização. 1 Neste, desejo debater alguns pontos relativos à sua origem.Devo portanto deixar claro que : se trata d' e uma tentstiva de reconstituição de caráter bastante conjectura!.Tôdas as vêzes que não temos dados seguros para conhecer as raízes de um traço de cultura, cabe a aventura intelectual da suposição) contanto que fundamentada em docum , entos idôneos e desenvolvida segundo os princípios lógicos da disciplina a qu .e se liga o estudo.Assim, estaremos perto da verossimilhança, que é uma forma modesta e por • vêzes frutuosa de verdade.O que importa é não confundir os planos nem querer , dar a • te11tativas desta espécie o caráter da certeza.E se não couberem num estudo sôbre função social do cu1-uru, caberão sem dúvida como investigação complementar .• Nas poucas mas substanciosas referências que deixou sôbre o cururu, Mário de Andrade, prosseguindo afirmações .de Couto de Magalhães, firmou um ponto • de vista que pode ser considerado como síntese dos indícios fornecidos pela tradição e verossin1ilhança: ''Entre as nossas formas coreográficas, uma das mais espalhadas é o Cateret ê ou a Catira, dança de nome tupi.Anchieta para catequizar os selvagens já se aproveitara dela, parece, defor • mf •ndo-lhe os textos no sent ido da R eligião Ca .tólica .Caso mais indiscutível ainda dessa fusão ameríndio-jesuítica é o do Cururu.Em certas festas populares, religioso-coreográfics.s, tais como a dança de São Gonçalo e a dança de Santa Cruz, pelo menos nos arre-~ • .' ' Antor1io Canclido clores de São Paulo ; após cada ní1mero do cerimonial, d2.11ça-se um Cururu.Ora, os processos coreográ .ficos desta dança têm um tal e tão forte sabor ameríndio , pelo que sabemos de danças brasílicas com 3r cinematografia atual , que não hesito em afirmar ser o Cururu uma primitiva dança ameríndia , introduzida pelos jest1ítas nas suas festas religiosas, íor2 ( e talvez dentro) do tempo.E êsse costume e dança permaneceram até agora.'':! Esta opinião permanece entre os folcloristas, e não há motivo para -ser contestada.Resta todavia esclarecer os problemas rel 1 ativos a como se teria dado a fusão referida por Mário de Andrade, e sem isto • não se poderá cientificamente aceitar a sua opinião.Entre tais p• roblemas estão os seguintes: 1 Haveria uma dança indígena de que o cururu derivasse diret an1ente?Quais as suas características? 3 2 De que modo os catequistas teriam influído na sua incorporação à cultura néo-brasileira?~ 3 Por que é o cururu encontrado apenas em áreas de povoamento paulista?4 Há elementos para avali2r a sua antigüidade, emergência, características iniciais, manifestações e modificaçõ : es? Quando não a resposta, pelo menos a discussão dêstes tópiccs pode ajudar-nos a esclarecer o problem ,a das origens, que não são de • ~ prezíveis para o entendimento conveniente da sua função atual. 1 .Como se sabe, cururu é "nome genérico do sapo na língua tupi''!, e está presente em mitos sôbre a origem .d' o fogo entre diferentes tribos dêste grupo, bem como noutras que ,lhe sofreram a influência.No primeiro caso encontram 1 os o Chiriguano, Apapokuva, Guaraní do litoral paulista, Tapirapé, Chiripá, Guaraiu, Guajajara, Mbyá-Guarani,:3; no segundo , os Chané e Tapietér.. Não sei se há possibilidade de explic a r pelo contacto cultural o mito análogo dos Tumupasa, da Bolívia Oriental, e o dos Karajá 1 • {1nicos exemplos que pude encontrar de sapo doador ou preservador do fogo fora das culturas Tupi ou tupinizadas, é verdade que numa investigação sumária.7 A propósito dêste assunto, escreve Herbert Baldus: "O roubo do fogo por animais é um motivo muito espalhado na América do Sul.Ora é a raposa a ladra da faísca, ora o sapo.O sapo sempre o é nas tribos da gran .defamília li11güística dos Tupi.Que ê1e haja sido escolhido para tal papel é muito compreensível, porque, como se sabe, êste animal tem a capacidad 'e singular de engulir coisas ardentes, como cigarros e brasas, talvez porque os tome por pirilampos."8J) L>ssí vci s r aÍZL'S cl e t1111 ~l cl ~111 ça p op ti lar• 3 Na represent2ção dramática de tais mitos, podem ocorrer verdadeir as ''d d " d d e anças o sapo , en1 que os ança ores refazem o processo mítico e encarnam o batráquio dispensador do fogo: ''Por fin1, seja citada ainda a naração de uma representação do roubo do fogo numa dança de Kururu na tribo tupí dos Guaj 2jara no Rio Grayahú no Maranhão (Heinrich Snethlage: ''Meine Reise durch Nord ' ostbrasilien'' , Journal für Ornithologie 7 5, Be1•lin, 192 7, pp.468-469): Recomeçou o c2nto; quando se tornou mais alto, o chefe da tribo levantou-se, dançou alguns passos e sentou-se novamente.Então trouxeram-lhe um gigantesco cachimbo 110 qual êle chupou algumas vêzes.Mais fogosamente repetiu a dança, -enquanto eu aprove itava a ocasião para experimentar o pito.Não me dei muito bem com a cachimbc _ da, porque os nervos da cavidade bucal me ficavam imediatamente afetados.A cada intervalo do baile punha-se o -chefe e cacl1im bar.Que isto ll1e era necessário , evidenciou-se depois.Ateou-se um fogo ao redor do qual os rapazes morenos pulavam em estado de embriaguez completa.De repente o chefe acocorou-se e pôs-se a saltitar pelo fogo a soltar o hu, hu, hu do s2po.Depois tomou uma brasa -e pondo-se a assoprá-la, enguliu-a de vagar.Isso foi o ponto culminante • de baile, mas não o único.A dança durou, quase sem interrupção, tôda a noite.E sempre se repetia a cena do engulir da brasa."nEntre tribos Tupi do Amazonas ) Barbosa Rodrigues registra a "dança do cururu'', acompanhada de um canto cujas primeiras palavras são: "Yá -munhan moracé, cururú, cururú'', ou seja, ''vamos danç2r, sapoi '. 1 º Resta saber se em tribos não-Tupi encontr2mos práticas seme-]l1antes.No seu Folk-Lore, diz João Ribeiro: '' ... entre os borórós de lviato Grosso (pratica-se) a cerimônia ritual e funerária que chamam bacururú e que é celebrada entre clam 1 ores e alg2_ zar1•a grande.As palavras bacururú e cu1•urú têm radicais comuns.Não é inverossímil que , dos borórós tenha vindo o nome da danca do cururú."11 Para o ilustre _, escritor esta só existi2 em Mato Grosso, daí a fantástica derivação que irnaginou.C, ururu é, como vimos, palavra tupi, e nada tem a ver com a 1•eferida cerimôni2, cujo non1e verdadeiro é ''róia Kurireu'' , ou ''canto grande'', iniciada com uma imprecação em que surge o nome de um dos heróis civilizadores dos Borôro, os gêmeos mític -os Bakororo e I tubore: ''a-a o-o Bal{ororo Kai re". 1 ~ A transcricão d. efeituosa de João Ribeiro • serviu de asa à sua impru-~ dente conclusão.Max Sch1nidt, 110 comêço dêste século, encontrou entre os Guató, n_ o sul de Mato Grosso , 12.rga prática do cururu; recentemente: Edmund Doppenschmidt encontrou-a, em região próxima desta, entre os Kinikinau do rio Taquari. 1 :{ Em ambos os casos, não pode haver a menor dúvida de que se trata _ d• e um traço tomado à ~ultura câ_boc~a, e integrado em cada tribo de acôrdo com a • sua respectiva organ1zaçao.A11to nio (:,111tlicJo Result a, pois, q ue não encontramos ''danças do sapo'' em tribos nãotupi.E se , como pretendeu J oão R ibeiro, houvermos de supor um fenômeno de dif L1 são cultL1ral, deveremos focalizar de p• referência as áreas em que foi massiço o con tacto entre colonizadores e povos à' o grup o Tupi -Guarani fato ocorrido inicialmen te, e muito mais, nas regiões litorâneas do que no at ual Ma to-Gr osso.Fora das cul turas tri ba is, não sei de referência expressa ao cururu no Brasil se tentr ional, além de informação oral de H erbert Baldus, que presenciou certa vez, no N arte de Go iás , t1n1a dança com êste nome, por sertanejos vindos do • Norte oll do Nordeste.Dançavam-na em roda , busto incli nado para a frente, pernas , flectid2s pa1•a os lados , numa coreografia imitativa dos pulos de sapo.Neste caso (não sei até que ponto representat ivo de prát ica generalizada e ti-adicional), estaríamos ante uma herança indígena de relativa pureza, ligada possivelmente a práticas rituais de origem tupi, no gênero da que descreveu Snethlage, e reinterpretada em têrmos re crea t ivos pelos caboclos que Baldus observou.14 A reinterpretação, aliás, deve ser encarada como conceito básico no caso de ter havido difusão .. Com efeito , dentro d' a melhor verossimilhança, esta se deu por intern1.édioda catequese jesuítica, tendo se desenvolvido em São Paulo, onde os inacianos mantiveram contacto prolongado com ma is de uma tribo Tupi (mormente Tupiniquim, Tupinambá e Carijó ), podendo imaginar-se um conjunto de condições favoráveis à reinterpret ação de dansas indígenas no sistema sócio-cultural das aldeias de ca-, tecu menos.Resta, porém, o problema dos Guaianá, que habitavam partes consideráveis do litoral e da região de Serra-acima, inclusive o local da aldeia de Piratininga.Se eram Tupi, ou Kaingáng, não saberíamos decidir: o que n ão padece dúvida, porém, é que, a ser verdadeira a segunda hipóte se, eram índios tupinizados , na língua, nos costumes e nas aliancas.15 ;,
Source: Revista de Antropologia
Author: Antonio Candido
Institution: Universidade de São Paulo
Language: Portuguese
Topic: Arts and Performance Studies
Subfield: Visual Arts and Performing Arts
Field: Arts and Humanities
Domain: Social Sciences
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2566764889
