Work

A Escritura feita Iniciação Feminina: Clarice Lispector e Virgínia Woolf

Year: 1986
Type: article
Abstract: A função dos gêneros masculino e feminino dentro da produ ção literária moderna tem sido apresentada por várias escritoras e de várias maneiras.De fato, existe uma literatura de gênero que, ao invés de ser redundantemente feminista no sentido de tratar do problema feminino isoladamente, refere-se antes aos inter-relacionamentos literários entre o masculino e o feminino.Neste tipo de produção literária, a voz da mulher manifesta-se de maneira dife rente da do homem, trata-se da voz feminina com uma literatura que lhe é própria, que reclama seus direitos e que tem seus próprios ritos ("writes, rights and rites,,, na versão inglesa, têm inclusive a mesma pronúncia).Apesar de diferenças históricas e culturais, Virginia Woolf e Clarice Lispector inserem-se neste tipo de produção literária em que o diálogo entre o homem e a mulher se enfoca em diferentes percepções do mundo, o que resulta num similar processo escri turai.Tanto para Lispector quanto para Woolf, o mundo se apre senta como domínio masculino.A originalidade de ambas resulta do surgimento de uma voz feminina fundamental que exerce papel decisivo no desenvolvimento da literatura moderna.A interação masculino/feminino se mostra particularmente in teressante em dois textos representativos das duas autoras em ques tão: o conto "A Apresentação'' em Mrs. DallowayJs Party (1) de (1 ) -Virginia Woolf, "The Introduction", em M rs.D alloway's Party ( Harvest/Harcourt Brace Jovanovich: N ew York, 1973).A versão portu guesa utilizada foi "A Apresentação", em Uma Casa Assombrada, trad.José Antonio Arantes (Editora Nova Fronteira: Rio de Janeiro), 1984), p .195.Língua e Literatura, (1 5 ), 1986.Virginia Woolf e o conto " Preciosidade" em Laços de Família (2) de Clarice Lispector.Uma análise desses textos mostra não só que Clarice Lispector desenvolve uma perspectiva feminina introduzida na literatura por Virginia Woolf, mas principalmente, que a vê de um modo mais crítico.Virginia Woolf tentou aproximar-se mais da vida através de sua literatura, isto parece ponto pacífico para a maioria de seus críticos.John Hawley Roberts observa a importância do duplo papel que representam as emoções e o intelecto, o sentir e o perceber em sua obra.A duplicidade de Virginia Woolf entre uma percepção mental e física expressa-se na interação masculino/feminino (3).Como bem demonstrou Benedito Nunes, no caso de Clarice Lispector, a linguagem se auto-representa, no sentido em que é, ao mesmo tempo, instrumento e objeto de sua ficção (4).A lin guagem de Clarice é uma tentativa mais direta de captar a vida pois além de conciliar o sentir e o perceber no sentido aludido a Virginia Woolf, a interação masculino/feminino se auto-represen ta no desenrolar do próprio drama linguístico de seu processo escriturai.A análise intertextual dos contos acima citados procurará mos trar que o conflito entre um ritual feminino privado e um ritual feminino público representa o relacionamento das autoras com a linguagem e o ato de escrever em termos de interação masculino/ feminino.Ambos os textos tratam dos ritos de iniciação femini nos, o primeiro contato de uma menina com o mundo masculino e sua nova identidade como mulher.Nesta iniciação fica implícito o surgimento da mulher com a sua própria voz literária, seus pró prios direitos e seus próprios ritos.Os textos unem o processo de escrever ao processo de transpor um estágio liminar que, em ambos os casos, é manifestado pela violação masculina tanto de forma in telectual como de forma física.No entanto há uma diferença de cenário importante nesses tex tos, o que demonstra um contraste radical entre a técnica de es--10 -(2) -Clarice Lispector, "Preciosidade", em Laços de
Institution: Harvard University
Language: Portuguese
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2771645661
FWCI:
Cites:
Cited by: 1
Related to: 10