Work

Shakespeare e Garrett

Year: 1950
Type: article
Abstract: Sumário: I -Fatos preliminares, em Portugal e Espanha.-II -Viagens de Garrett e sua iniciação shakespeariana.-D l -Principais influências.-IV -Um conferencista shakespeariano e outras notícias.-I Durante os séculos de vigência da estética neo-clássica, fundada na imitação dos autores gregos e latinos, teve de haver modelos para essa imitação, pois o conceito de imitação comporta dois planos opostos: o do imitador e o da pessoa ou coisa imitada, que será o modêlo.E mo delos foram todos os autores que atestavam a sabedoria e a experiência da civilização mestra.E houve também orientadores para essa imita ção: os teóricos, antigos e modernos, que haviam definido a consciência do absoluto estético, na invenção e na expressão.Supérfluo nomeá-los.Depois da revolução romântica deixou de haver modelos e passou a ha ver anti-modelos ou exemplos precursores da rebeldia contra a imitação dos antigos, sobretudo contra o acatamento do absoluto condensado nos dois gêneros literários nobres, a tragédia e a epopéia, partes principais do patrimônio espiritual da Antiguidade.Sejam quais forem os conceitos e definições do Romantismo, todos conterão êste comum elemento nega tivo: independência da imaginação, libertação dela para longe das limi tações de estética herdada dos antigos ou deduzida de suas obras.O pró prio qualificativo de "romântico" nasceu na Inglaterra, uma das obrei ras do Pré-romantismo, para designar o uso da liberdade imaginativa dos romances ou baladas (1).Romances, no sentido de narrativas noveles-cas, ou no de baladas tradicionais, foram desconhecidos da Antiguidade, não tiveram teorias reguladoras e só entraram em favor do grande pú blico e da alta crítica após a revolução romântica.Houve no classicismo laivos de romantismo, como através do Romantismo passaram sobrevivências clássicas -isto dando à palavra "classicismo" o sentido de arte de uma classe superior, com seu equilíbrio que desconhece as velei dades individualistas, com sua filosofia da vida bem estabilizada em ali cerces inamovíveis, e atribuindo à palavra "romantismo" o significado de crise de tudo isso.Entre os antigos, Ovídio, Catulo, Longus e, em certa medida, o próprio Virgilio, sofreram de alguma adivinhação da psicose romântica.Românticos prematuros foram depois todos os poetas, que em plena era clássica deram relevante lugar ao amor ou anteciparam revela ções intuitivas a respeito dêle e passearam a imaginação anelante de li berdade pela história e pela alma dos homens, criando os próprios meios de expressão, à revelia dos teóricos da estética clássica: Petrarca, pri meiro cronista da paixão amorosa; Shakespeare, que fez do teatro um espêlho do perpétuo humano; Lope de Vega e Calderon que acintosa mente desconheceram a estética dramática dos antigos e muitas vezes se sobrepuseram à estrutura social e moral dos seus ambientes históricos.Cada literatura tem seu desenvolvimento histórico e episódico peculiar, e dentro da solidariedade geral -aquela solidariedade que é a base da crítica comparativa ou da literatura comparada.Tem, por isso, seus pró prios precursores da liberdade sentimental dos românticos e da fúria in dividualista.Mas a evolução geral da arte literária ostenta predomi nantes anti-modelos ou seus geniais mestres da rebeldia.E dêles o maior foi Shakespeare, que tem em germe tôda a concepção romântica da vida, com o que nela podia sobreviver de clássico ou estável, por ser conquista definitiva na compreensão do homem.Só a crítica romântica, interpretando com espírito histórico as mu danças gerais do gosto e da sensibilidade pública, haveria de pôr na sua devida altura a êsses geniais românticos do classicismo.Se a Inglaterra nos deu algumas das forças inovadoras do Pré-romantismo, sobretudo o seu medievalismo e o seu popularismo, a crítica alemã, com a sua forte panfilia, havia de ensinar ao mundo o que era a grande originalidade estética e psicológica do teatro de Shakespeare.O professor Gonçalves Lisboa, meu saudoso mestre em anos bem distantes, recordou êsses porfiados e eficientes esforços da alta crítica germânica (V .Shakespeare e a admiração, em plena vigência do gôsto clássico, a Shakespeare é a de Manuel de Figueiredo, comediógrafo e crítico empenhado justamente na restauração do teatro, sob a égide de uma academia conservadora, a Arcádia Lusitana.Os estilos literários, como os estilos políticos, no último período de sua vida, requintam de intolerância defensiva.Figueiredo recapitulou com agudeza toda a tecria da comédia antiga, mas numa das suas dissertações críticas tem uma veneta de sinceridade libertadora, para declarar: " .Os Dramas mais insipidos são os em que se achão mais bem observados os preceitos da Art a Não vos opprimais, Espiritos gran des, com a multiplicidade de regras, buscai o fim, movei as paixões; mais estimo huma cena dos monstruosos Dramas de Shakespeare, do que os re gular es Poemas d e .mais fogo tem huma atrevida pincelada de Jordão, do que os correctos contornos de. ." (V.Obras Póstumas de Manuel de Figueiredo, Lisboa, 1804-1810).O que Figueiredo, pobre oficial de secretaria em Lisboa, seqüestrado do alto convívio literário, concedia, era em breve retirado pela Marquesa de Alorna, aristocrata muito via jada e convivia pelas côrtes de além pireneus.Tendo estado também na Grã Bretanha, não aprendeu aí a apreciar Shakespeare, que tinha por "doido e grosseiro", extravagância que "só os inglêses aturam" Convém lembrar que em pleno reinado do Pré-romantismo, havendo residido na Alemanha, a Marquesa de Aloma foi devota tradutora da A rte Poética de Horácio e da de Pope.Aquêle êrro nã*) a impediu de escrever êste passo na sua Autobiographies: "Il faut faire le bien, sans s'occuper des fausses interprétations que les méchants savent lui donner.To-be-or not to be is the question -paroles de Shakespeare qu'elle citait souvent pour se soutenir" (V.Inéditos, publ.por Hernani Cidade, Lisboa, 1941).Alguma coisa ficara da leitura do Hamlet, alguma coisa que atestava sua profunda realidade.E quem sabe se aquêles apodos de "doido e gros seiro" só queriam expressar a surpresa que produz a própria realidade doidamente grosseira.Não eram muito outras as opiniões de Voltaire, anglófilo, e de La Harpe, crítico profissional.O descobrimento de Shakespeare no continente europeu é lento, estende-se de 1680 a 1800.Êstes foram os limites cronológicos das sábias investigações do Prof.Paul Van Tieghem em La D écouverte de Shakes peare sur le continent (Paris, 1937).Tanto pelas épocas, a que se re porta, quanto pela porção de continente sôbre que se exerce a sua pes quisa, França e Alemanha principalmente, o comparatista francês não Esta tragédia Catão, de que fala Garção, é a de Joseph Addison, de 1713, apologia da liberdade, mais de inspiração estética francesa do que genuinamente inglesa.Foi traduzida por Manuel de Figueiredo e exer ceu influência em Portugal, até mesmo sobre Garrett, no período préromântico.Na lista das obras de Figueiredo -que seu irmão teve de vender a pêso, para libertar os armazéns da Imprensa Nacional -essa tradução tem a data de 20 de janeiro de 1779.Também a única tragé dia de W illiam Congreve, The M oum ing Bride, de 1697, foi traduzida para português por Nicolau Luís e José Antonio Cardoso.Em Espanha, o processo de descobrimento e assimilação de Shakespeare foi muito diferente.Deu logo de comêço alguns passos seguros.A razão foi que neste país a tradição dramática dos antigos sempre vi veu em luta com uma tradição própria.Disso teve certeira intuição Camilo Castelo Branco, ao escrever no seu Curso de Literatura Portuguêsa, em 1876: "Na Espanha era de crer que mais cêdo se restabe lecesse o nacionalismo literário, por que aí, como na Inglaterra, prevale ceram sempre os característicos de litteraturas que de si mesmas se ali mentavam nas duas grandes personalidades de Shakespeare e Lopo de Vega" (Pág.273, capítulo sobre teatro).Ainda no século XVIII, em franco Pré-romantismo, Ramón de La Cruz tentou a tradução do Hamlet, mas de um falso H am let, o da adapta ção de Jean François Ducis.Diretamente do inglês e com devoção com preensiva só o traduziu Leandro Femández Moratín, cujas andanças de funcionário diplomático o levaram para além dos Pireneus, para as pro ximidades das fontes da nova literatura.A sua versão do H amlet, publi cada em 1798, é o verdadeiro início do culto shakespeariano no mundo espanhol.E é para notar que tal versão e tal "cáos dramático" pudes sem convizinhar em sua consciência, lado a lado, à boa paz, com a sua fidelidade a Molière e com a sua francofilia militante.Depois, o Duque de Rivas assume posição análoga à de Garrett, quer no movimento re formador, quer na devoção shakespeariana.Não se estranhe que em 1772 Ramón de La Cruz adotasse o falso texto de Ducis para a sua tradução do H amlet.No continente, o nome de Ducis sobrepusera-se ao de Shakespeare.E essa sobreposição trans mitiu-se aos países americanos.Ainda em 1842, aqui no Brasil, Domin gos José Gonçalves de Magalhães adotava o texto de Ducis para a sua tradução de Othelo, que apresenta como uma "tragédia de Ducis".O tepretações por atores de alta inspiração como Anastacio, Brazão, Ferreira da Silva e Ângela Pinto, e sábias glosas criticas, umas baseadas na litera tura erudita dos textos, outras sugeridas por ocasionais passagens por Lis boa de grandes atores estrangeiros, como Rossi, Salvini e Novelli.Nem algumas conquistas da literatura comparada, que assinalam in ternas e formas do mundo shakespeariano, foram ainda incorporadas à fluxos espanhóis e portugueses, diretos e indiretos, entre o patrimônio de história literária de Portugal.Nem sequer as referências aos bons vi nhos portuguêses se arquivaram.Ter emborrachado personagens shakespeareanas é um glorioso pergaminho para os vinhedos de Portu gal.Nem mesmo se rastreou a presença do poeta na vida e na obra de Garrett, apesar de ser ela bem patente.Teófilo Braga escreveu muito sobre Garrett.Os dois volumes de 1904 -1905, Garrett e o Rom antismo e Garrett e os D
Language: Portuguese
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2799784286
FWCI:
Cites:
Cited by:
Related to: 10