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Cosme e Damião: o enredo de uma cidade

Year: 2018
Type: article
Abstract: No Rio de Janeiro, a devoção aos santos Cosme e Damião tem a sua principal expressão na festa do dia 27 de setembro 1 .Nessa data, milhares de crianças percorrem as ruas e bairros do Rio e Grande Rio em busca dos saquinhos de doces e brinquedos distribuídos em homenagem aos santos gêmeos, principalmente por adeptos do catolicismo e das religiões afro-brasileiras.As crianças correm atrás de doce 2 em grupos constituídos por vizinhos, colegas de escola e/ou parentes; e podem estar sob a supervisão de pelo menos um adulto ou adolescente mais velho que os acompanha.Os grupos transitam por ruas, praças, casas, vilas, igrejas católicas, terreiros de umbanda e candomblé, entre outros espaços nos quais a data é festejada.Nesse deslocamento, as crianças percorrem áreas da cidade que não frequentam rotineiramente, classificando os lugares como fortes ou fracos a partir da quantidade e qualidade dos doces que conseguem pegar. 2 O caráter festivo do Dia de Cosme e Damião instaura outra temporalidade e altera a dinâmica das relações socioespaciais da cidade, levando a uma circulação extraordinária de coisas e pessoas cujo caráter é tanto lúdico quanto religioso.Desde 2013, a pesquisa Doces Santos 3 tem se dedicado a compreender essa devoção no Rio de Janeiro e a sua principal manifestação -a distribuição dos saquinhos de Cosme e Damião -, focalizando as dimensões da reciprocidade, das relações inter-religiosas e dos fluxos urbanos articulados pela celebração dos santos gêmeos (MENEZES, 2013).3 Considerando o intenso trânsito religioso desses santos, faz-se necessário ressaltar que, de acordo com a tradição católica, os gêmeos Cosme e Damião teriam sido médicos anárgiros 4 que realizavam curas milagrosas na Síria, durante o século III.Por fazerem dessa prática uma profissão da fé cristã, levando à conversão daqueles que eram curados, Cosme e Damião foram martirizados pelo Império Romano.5 Tendo suas vidas Cosme e Damião: o enredo de uma cidade Ponto Urbe, 23 | 2018 1 e milagres marcados pela cura dos enfermos, o culto aos santos Cosme e Damião se desenvolveu na Europa vinculado às práticas médicas.4No contexto da diáspora africana nas Américas, o culto aos santos gêmeos foi associado ao culto africano à gemelaridade; destacando-se, em terras brasileiras, a hibridização 6 entre Cosme e Damião e os orixás Ibejís 7 , protetores dos gêmeos na tradição ioruba.Nesse processo de articulação, tanto a função quanto a imagem de Cosme e Damião foram redefinidas.Os santos passam a estar ligados à infância, sendo considerados protetores não só dos gêmeos, mas das crianças de maneira geral.Em sua estatuária, Cosme e Damião adquiriram formas infantis 8 e um novo personagem foi acrescido à sua imagem, como uma miniatura dos gêmeos, posicionada entre eles.Sendo três os irmãos: Cosme, Damião e Doum 9 -este, uma versão popularizada do termo iorubá Idowú, nome que se dá ao irmão nascido após os gêmeos Ibejís (LIMA, 2005; MONTES, 2011).E, como nos lembra Freitas (2015:29), é na festa que a infantilização dos santos, materializada em sua estatuária, ganha as ruas, uma vez que as homenagens com distribuição de doces, brinquedos e/ou caruru vinculam intimamente Cosme, Damião e Doum às crianças.5 Associados aos orixás e infantilizados, os santos passaram a integrar panteões religiosos diversos, ultrapassando os limites do catolicismo, tornando-se presentes em religiões de matriz africana (candomblé, umbanda, batuque etc.) e também religiões ayahuasqueiras (santo daime e barquinha).No entanto, esse trânsito religioso [...] não implica que eles sejam os mesmos personagens em cada um deles.Estabelecem-se jogos de redefinição entre nome, forma e características desses entes que podem resultar em configurações bastante distintas ao passarmos de um contexto a outro (MENEZES, 2016:5). 6Presente em diferentes tradições religiosas, a devoção a esses santos pode assumir configurações diversas, acompanhando as redefinições locais e cosmológicas.Se, por exemplo, a tradição baiana de celebrar o 27 de setembro se caracteriza pela oferta do caruru a uma rede circunscrita de pessoas no âmbito da casa ou do terreiro (CASCUDO, 1999; LANDES, 2002 LIMA, 2004), no Rio de Janeiro, o culto a Cosme e Damião se singulariza pelo protagonismo que a distribuição dos saquinhos de doces assume, realizando-se fundamentalmente enquanto uma grande brincadeira pelas ruasembora perpassando casas, mercados e templos -tomadas por grupos de crianças em busca das prendas (LOPES, 2012; POEL, 2013).Em sua dissertação de mestrado -um dos resultados do projeto Doces Santos -, Morena Freitas, a partir de sua etnografia acompanhando os grupos de crianças que corriam atrás de doce, produz uma síntese das diferentes modalidades de celebrar o dia 27 de setembro no Rio de Janeiro: Quando os doces são dados em saquinhos eles podem ser distribuídos do portão de casa ou na rua, onde podem, ainda, ser dados a pé ou de carro.[...] Nas praças vemos a festa acontecer de várias formas.Quando não se quer distribuir os doces no portão de casa, ir até a praça -a pé ou de carro -é uma boa opção, pois por lá sempre se encontram crianças.[...] Uma outra forma de festejar os santos é ofertando uma mesa com bolos e doces.Esta parece ser uma prática um pouco menos recorrente que os saquinhos, pelo menos nas festas domésticas -afinal, nos centros espíritas
Source: Ponto Urbe
Language: Portuguese
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2906839039
FWCI: 1.51
Cites: 8
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