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Religião, Gênero E Esfera Pública: Uma Introdução Ao Debate

Year: 2019
Type: article
Abstract: Ingrid Cyfer O presente dossiê da revista Pensata versa sobre os cruzamentos entre três temas: "Religião, Gênero e Esfera Pública" e pretende contribuir para o avanço das reflexões a respeito das intersecções entre esses três tópicos complexos e vastamente debatidos nas Ciências Sociais.Os artigos que compõem são de pesquisadores iniciantes que exploram teoricamente e etnograficamente essa temática, apresentando como elemento comum a configuração do espaço público (ou do modelo democrático) brasileiro desenhado a partir da intersecção entre esses temas.Na tradição das ciências sociais, as relações entre a esfera religiosa e a esfera pública foram analisadas a partir de abordagens que pensavam um deslocamento da esfera religiosa para o espaço público, sob a influência do importante paradigma da secularização, muito caro aos estudos das religiões no Brasil.As discussões sobre a presença de agências religiosas na esfera pública provocaram diferentes tipos de análises e posicionamentos por parte dos cientistas, sendo que, até inícios dos anos 2000, houve a proeminência das análises de inspiração weberiana.Essa abordagem considerava a presença das religiões na esfera pública enquanto uma contraposição à teoria da secularização e à modernidade, ao conceber que o processo de modernização das sociedades resultaria na separação da sociedade em esferas e na secularização, e que, nesse processo, a religião se retiraria da esfera pública, tornando-se restrita à vida privada dos indivíduos 1 .Entretanto, sem negar o processo de separação da sociedade em esferas que caracteriza o processo de secularização, outros autores, a partir de meados dos anos 2000, passam a chamar a atenção para a insuficiência desse paradigma na análise das relações entre religião e esfera pública.Autores passam a apontar a 1 Os trabalhos de Antônio Flávio Pierucci são paradigmáticos dessa abordagem, destacando que a secularização remete-se a luta da modernidade cultural contra a religião, a separação da sociedade em esferassendo a esfera religiosa separada da esfera política.(Pierucci, 1996; Religião como solvente) REVISTA PENSATA | V.7 N.1 DEZEMBRO DE 2018necessidade de se observar às especificidades do processo de separação em esferas ocorrido em cada sociedade (Asad, 2003;Montero, 2006;Giumbelli, 2008).Na sociedade brasileira, por exemplo, "certas formas de presença da religião no espaço público não foram construídas por oposição à secularização, mas, por assim dizer, no seu interior.Em outras palavras, foi no interior da ordem jurídica encimada por um estado comprometido com os princípios da laicidade que certas formas de presença da religião ocorreram" (Giumbelli, 2008, p. 18).Dessa forma, no caso brasileiro, a presença da religião na esfera pública foi constituída no próprio processo de laicização da sociedade.Já outros autores passam a apontar a presença da religião na esfera pública não como uma oposição à secularização ou ao secularismo, mas como uma forma de "secularismo estratégico" desenvolvido pelas agências religiosas, conforme o conceito cunhado por Vaggioni (2005;2017) ou ainda de um "ativismo reativo".Nessa leitura, o ativismo religioso assume a forma característica de organizações da sociedade civil, nelas se espelhando 2 (Vaggioni, 2005;2017).Já o secularismo estratégico, conforme o termo adotado por Vaggioni, é uma forma de articulação da visão de mundo de grupos religiosos, ou de convicções religiosas através de discursos seculares.Nesse sentido, ao invés de se centrarem em noções de moralidade ou teológicas, os atores vinculados às agências religiosas se expressam a partir de dados científicos e/ou de discursos legais.Na esteira dessas constatações, uma série de estudos sobre s forma de presença e interferência de atores e grupos religiosos em disputas públicas no Brasil identifica a adoção de um modus operandi acadêmico-científico pelos atores religiosos (Sales, 2014; 2015; Campos Machado, 2017;Luna, 2013).Na abordagem adotada por esses autores, importa observar e analisar as estratégias e formas de ação adotadas pelos atores religiosos (individuais e coletivos) quando envolvidos em disputas públicas.Todos esses estudos analisam fenômenos que ocorrem nas fronteiras entre o religioso e o secular, e indicam que não é por meio da aplicação da privatização religiosa, mas, antes, ao considerar 2 Como, por exemplo, a ongevização das religiões, segundo a qual a defesa das convicções religiosas não é apenas realizada por igrejas ou templos e seus representantes, mas também por um número crescente de organizações da sociedade civil que defendem doutrinas religiosas.Essas organizações, segundo o autor, representam uma face importante da revitalização religiosa (Vaggioni, 2005;2017).SALES, Lílian.'Em defesa da vida humana': moralidades em disputa em duas audiências públicas do STF.
Language: Portuguese
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W2995583950
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