Para enfrentar a violência sexual nas universidades, o tripé: acolhimento, normas específicas e educação.
Year: 2020
Type: article
Abstract: de Antropologia da USP, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências da USP em 12 de fevereiro de 2020.Heloísa é graduada em Ciências Sociais e mestra em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo e doutora em Antropologia Social pela UNICAMP.Foi pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero PAGU/UNICAMP e o é atualmente do Núcleo dos Marcadores Sociais da Diferença (NUMAS/USP), trabalhando com temas relacionados a gênero e sexualidade, mídia e violência.Heloísa falou por cerca de duas horas sobre os casos de violência sexual e assédio na universidade, as tipologias que emergiram dos relatos, os procedimentos insuficientes dentre e fora da universidade, as hierarquias e assimetrias que facilitam situações de violência, a fundação da Rede Não Cala e as medidas que devem ser tomadas para a prevenção dos casos, a conscientização da comunidade acadêmica e o encaminhamento das denúncias, com acolhimento das vítimas e mecanismos adequados para apuração dos fatos.Deixo aqui mais uma vez meus agradecimentos pela conversa e por fazer parte dessa Rede.Para enfrentar a violência sexual nas universidades, o tripé: acolhimento, no... Ponto Urbe, 26 | 2020 1 Ana: A ideia é que esta entrevista tenha um caráter de utilidade para quem está lidando com questões de assédio sexual, violência de gênero e violência sexual no contexto da Universidade.Que seja uma partilha de experiências, que possa inspirar e ampliar o debate.Eu queria começar com uma apresentação sua, que coloque em perspectiva as suas trajetórias como antropóloga, feminista, e como alguém que teve vivências na universidade, que passou por todo esse processo de socialização e passou do papel de aluna para o de professora e para alguém que foi instada a intervir, a investigar e a atuar em situações conflitivas sobre gênero e sexualidade.São papeis que se sucedem do ponto de vista cronológico, mas também se informam mutuamente, apesar de não serem totalmente equivalentes e comensuráveis entre si.Heloísa: Eu entrei na USP pela primeira vez em 1982, para estudar administração de empresas na FEA.Eu me senti uma ET, a única coisa que eu gostei foi a disciplina de sociologia.Depois eu descobri que existia o curso de Ciências Sociais, eu não sabia disso quando eu estava na escola.E eu acho que a coisa que marca minha trajetória e de muitos de nós naquela época, pensando em gênero e sexualidade, nos anos 1980 (eu entrei em 1985 em Ciências Sociais), é que a gente tinha essa sensação de que aqui [na universidade] era o lugar da liberdade, da liberdade sexual inclusive.Então, na FFLCH foi que eu descobri um ambiente que tinha muitos gays assumidos, lésbicas nem tanto, mas muitos gays homens assumidos.E para mim foi uma libertação sexual.Foram os momentos em que eu comecei a ter uma vida sexual ativa e me sentia muito à vontade aqui, tinha paqueras e coisas assim.Então tinha esse imaginário da universidade como um lugar, nessa questão de gênero e sexualidade, de libertação, de experimentação, de descoberta de si.Eu fiz aqui o mestrado com o [José Guilherme Cantor] Magnani sobre cinema e a questão de gênero apareceu para mim no mestrado.Com uma coisa importante, eu já me sentia razoavelmente feminista, mas a gente não falava nisso nessa época.A gente não ficava se declarando feminista, feminista era muito palavrão nos anos 80, 90.Mas eu acho que desde meus 13 anos, mais ou menos, eu já era meio feminista.Então a questão dos marcadores começou a aparecer para mim desde o mestrado, por isso eu fui fazer doutorado na UNICAMP, porque tinha uma área forte de estudos de gênero, que naquela época no doutorado em Ciências Sociais chamava "família e gênero".Quando eu terminei o mestrado e antes de entrar no doutorado eu tive um convite para trabalhar no CEBRAP com uma pesquisa de campo em Montes Claros, no norte de Minas, assistindo televisão com as pessoas e já tendo a questão de gênero e sexualidade como uma questão central do projeto de pesquisa.Eu entrei aqui na USP em 2007, vim para cá um pouco com essa missão de montar uma disciplina de gênero, de teoria de gênero na graduação das Ciências Sociais exatamente pela sensação de que era uma coisa que faltava.Ana: Eu fui da sua primeira turma.2008.Heloísa: Exatamente.Eu comecei a dar aula em 2007.E no primeiro semestre de 2008 (a minha filha Taís nasceu no fim do semestre) eu dei a primeira versão de Antropologia e Gênero, que depois eu comecei a repetir a cada dois anos na graduação e a cada dois anos na pós.Eu fiquei com a cara da professora que dá a disciplina de gênero na FFLCH.Então vinham alunos de todos os cursos, aquela sala lotada, né?.E começou a acontecer, na hora do intervalo ou no fim da aula, de alguma aluna vir e falar "professora, sabe que aconteceu alguma coisa..." Algumas alunas de graduação de diversos cursos, e normalmente a conversa era "então... eu tenho uma amiga, ela mora no CRUSP [Conjunto Residencial dos Estudantes da USP], ela foi a Para enfrentar a violência sexual nas universidades, o tripé: acolhimento, no... Ponto Urbe, 26 | 2020uma festa aqui e aconteceu um abuso".Os primeiros relatos que eu vi eu lembro que eram associados a esses dois fenômenos: festa e moradia universitária.Eu já desconfiava que tinha acontecido com elas mesmas.Mas era o jeito delas conseguirem contar, colocavam em terceira pessoa.Elas começaram a me contar essa sensação de um abuso sexual vivido entre amigos, pessoas que se conheciam, pessoas que eram colegas: "ah, porque ela bebeu demais na festa e alguém abusou dela", ou "eu estava muito bêbada na festa, meu amigo ofereceu para eu dormir na casa dele, ele é meu amigo, eu confiei, e quando eu acordei ele estava abusando de mim de algum modo".Eu comecei a ficar assustada com essas histórias, que me pareciam uma agressão de cunho sexual entre colegas, um abuso.Elas não necessariamente usaram a palavra estupro, mas elas descreveram: "quando eu acordei", ou "minha amiga acordou com a dor da penetração".Alguma coisa bem explícita.Eu comecei a ficar preocupada e a procurar entender quais eram os caminhos da universidade para lidar com isso, e eu descobri que, na época, havia um programa novo chamado USP Diversidade, ligado ao Núcleo de Direitos.Isso é 2014, quando a Maria Arminda [do Nascimento Arruda] estava na Pró-Reitoria de Cultura e Extensão.Ela juntou vários programas que tinham, em alguma medida, a ver com a questão dos direitos humanos, no Núcleo de Direitos.Institucionalmente, este núcleo seria articulado pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão, inclusive ela fez um documento definindo o que seria cultura e extensão e tinha pauta de direitos humanos.Na época, o coordenador do USP Diversidade era o professor Ferdinando Martins da ECA, do teatro.Mas o USP Diversidade era um programa com um professor e dois bolsistas apenas organizando seminários, debates, coisas bem acadêmicas, sobre gênero e sexualidade, o foco era o combate à homofobia na universidade.Não havia um canal de denúncia, não havia um canal de apuração.E eu fui descobrindo que o único jeito de denunciar era levar à diretoria de cada unidade, no caso da USP.Daí o diretor decidiria se faria uma sindicância ou não, um procedimento jurídico interno que funciona como uma espécie de inquérito policial para ver se houve alguma quebra do regimento da universidade.Nem no regimento e nem na lógica da sindicância há nada que mencione esse tipo de agressão.Então, a sindicância operava para verificar que houve uma festa e picharam o prédio, para ver se tinha algum dano físico no espaço, para investigar plágio, para investigar algum ato de bate-boca e agressão entre funcionários, ou entre funcionário e professor, ou entre professor e aluno, entre alunos.Então eu também logo fui percebendo que a lógica da sindicância não seria apropriada para esse tipo de caso.Eu herdei o planejamento do Ferdinando e dos bolsistas, um deles era o Filipe Cruz que está aqui na pós da Sociologia, de fazer uma pesquisa para descobrir esse tipo de problema.O primeiro plano era fazer uma pesquisa, pelo menos saber o que está acontecendo, mas não havia nenhuma iniciativa de como lidar com os casos em si.Eu peguei o USP Diversidade e na primeira semana as pessoas começaram a me procurar com histórias semelhantes.Eu dei uma entrevista para o Jornal do Campus, as pessoas começaram a me achar.Quem me procurou foi um grupo de alunos da Faculdade de Medicina.E pediram para marcar uma conversa comigo, que eu marquei aqui na FFLCH porque eu percebi que a coisa era delicada e precisava de uma conversa sem outras pessoas ouvindo.O núcleo era um monte de gente passando... aí eles começaram a contar dos casos associados aos trotes e às festas da Medicina, especificamente uma festa que chamava Fantasias no Bosque.Para enfrentar a violência sexual nas universidades, o tripé: acolhimento, no...
Source: Ponto Urbe
Author: Ana Letícia de Fiori
Institution: Universidade Federal do Acre
Language: Portuguese
Subfield: Gender Studies
Field: Social Sciences
Domain: Social Sciences
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W3046524395
