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O comunismo imaginario

Year: 1996
Type: dissertation
Abstract: RESt'\10Esta pesquisa, filiada ao domínio teorico da escola francesa de Análise do Discurso.tem como objetivo especifico de estudo a analise do funcionamento do discurso jornali.sticopo!ítícoque.no Rio de Janeiro, foi se constituindo sohre o Partido Comunistn Brasilcno (PCB) desde março de ! 9 2 .data de sua fundação.até 1989, ano da primeira eleiçào direta para presidente da República após o fim da ditadura militar.O r.:oqms discursivo constituise de noticias sohre o PCB publicadas em diferentes períodos históricos.nos seguintes jornais:() País, ('orrl!io da Aianha, Diúrm ('arioca.() (Jloho.Jornal Jo Brasil e() /)ia.Duas hipóteses nortearam a abordagem desenvolvida pela análise: 1 ~ no modo como o PCB e falado pelo discurso jomaHstico-politico já se encontra uma interpretação.cuja determinação é dada.ideologicamente.por urna memória já constituída sobre o sujeito ocidental e sobre uma concepção de ética-moral dos direitos humanos; 2tendo em vista a concepção de sujeito constitutiva do imaginário ocidentaL o discurso jornalístico institui o PCB no lugar do moro enquanto um t a L ie, um inimigo da sociedade brasileira_ Na análise.foram descritas e ana!ísadas as seguintes marcas lingüísticas especíticas: as denominações.os enunciados definitórios e o discurso relatado.Para além de tais marcas.foram analisados também dois aspectos específicos da prática discursiva j ornalistica: as matéias assinadas e as narrativas presentes nas reportagens.Em todo o processo de análise.considerou-se a dinâmica da interferencía da memória no domínio da atualidade enquanto reorganização das filiações de sentidos bem como sua intervenção na atualidade enquanto antecipação.A análise permitiu verificar que o discurso j o r n a l i s t i c o p o l í t i c o sohre o PCB atende à disjunção Bem I MaL construída em torno da moralidade o c i d e n t a l c r i s t ã .separando em dois campos antagônicos os sentidos possíveis, ie.aqueles permitidos pelo dispositivo ideológico desta é t í c a m o r a L e os sentidos indesejáveis.ou seja.aqueles que marcam uma diferença relativamente a esta moralidade_ O discurso jornalístico que se organiza no Riode Janeiro sohre os comunistas desde 19::?.2, portanto, ao mesmo tempo em que nega o pensamento comunista.o outro.inserindo-o no campo do Outro.inimigo dos valores ocidentais, reafirma uma identidade brasileira.filiando-a ao imaginário ocidental cristão.A negação do PCB está_ deste modo.corre!acionada à confirmação do modelo ocidental.Résumé Cette recherche.!iée i l'école française de l'anavse du discours.tàít un litude du fonctionnement du discours j o u r n a l i s t i q u e p o l i t i q u e des journaux de Rio de Janeiro .\/1/'le Parti Co muniste Brési!ien.Notre hypothése c 'est que les jomnaux ont une fonction important dans la constítution de l'imaginaire qui fixe les comunistes a la p!ace des énemis de la société brésilienne.'pst' materno se fazia ouvir.Eu ainda não compreendia bem que palavras eram aquelas que não podiam ser ditas, que histórias eram aquelas silenciadas quando entrava na sala.Dentre as muitas leituras que circundaram meu mundo p r é ã d o ! e s c e n t e , além dos livros de Contos de Fada, dos de Monteiro Lobato e de Julio Verne, a revista Seleções aparece com certo destaque, dada a regularidade com que entrava em casa.Talvez na leitura daqueles títulos Ameaça vermelha, etc., na época tão obscuros quanto os sílenciamentos familiares, se encontre parte dos interesses que só com a tese percebi ter.Para dar sentido aos sentidos n ã o d i t o s pelos adultos euliteralmente consultava nos dicionãrios as palavras emreouvidas.Mas não me lembro de ter entendido muita coisa.Alguns anos mais tarde, as lacunas começaram a ser preenchidas.Já como aluna no ginásio de um dos colégios cariocas mais duramente atingidos pela repressão, fui aprendendo pouco a pouco o que significa refletir, interpretar, debater e reivíndicar: nossa luta possível era com palavras e não se tratava de uma luta vã.Ação, ideologia e linguagem estavam ali, juntas, na prática; a teoria, eu só vim a descobrir muito tempo depois.Aos sentidos silenciados durante a in!ancia e à descoberta de que havia inúmeras palavras a serem faladas, j u n t o u s e o dizer indignado e apaixonado da militância universitária.Outras leituras (edições piratas de obras censuradas, por exemplo, que iam circulando nos pequenos grupos de estudo de História) foram se misturando âs literaturas previstas pelo curso de Letras, às discussões com amigos estagiários no Museu do Índio, aos comentários de um namorado do 'movimento', às primeiras passeatas, a certas músicas de Chico, Milton e Caetano, enfim, leituras e histórias comuns à época política do chamado 'Baixo Leblon' (ou "esquerda festiva", como pejorativamente diziam alguns).Isso tudo e, também, uma desilusão, junto com John Lennon, de que "o sonho acabou", compunham o fragmentado imaginário de pelo menos parte de uma geração.A angústia existencial do "e agora?" atravessava as conversas, as viagens, os desejos.li No final da década de 70, marxismo e psicanãlise entrelaçaram-se de muitas formas (até mesmo pela resistência a tal entrelaçamento) não apenas na minha vivência pessoal, mas também na de muitos da minha geração_ Do mesmo modo, foi meio inevitável, para nós, uma atuação social, política--trabalhamos com comunidades carentes, estávamos lâ nas 'Diretas já' -e também uma busca por mudanças (quase todos aderimos ao PT e aos outros sentidos que aos poucos foram se desenhando).Mas até que ponto o imaginário daquelas gerações de brasileiros católicos, ou seja, a tradicional classe média, se deíxou impregnar por estes novos e outros sentidos?Nas primeiras eleições diretas após o ciclo militar, para quem e para quantos os ataques verbais contra as esquerdas feitos por Collor pareciam velhos, ultrapassados?Por outro lado, quem ganhou as eleições?Ou melhor, o que elegeu Collor?Em 1988, enquanto finalizava minha dissertação de mestrado fmprensa de 1930 e memória histórica: uma questão para a Análíse do Discurso ouv1a 'desatentamente' o horário político oficial das campanhas eleitorais na televisão, além de acompanhar comícios e ler um ou dois jornais diários.Foi então que percebi nos discursos dos candidatos de direita paráfrases dos textos políticos produzidos em 30 sobre o PCB.Havia uma grande semelhança entre o modo de se falar sobre o Partido em 30 e o modo de Collor, por exemplo, atacar não somente o PCB, mas sobretudo as esquerdas em geral.Pareceu-me, de imediato, que os mesmos efeitos de sentidos, entreouvidos em 64 e parte do objeto de análise enquanto memória dos anos 30, haviam retornado na disputa eleitoral de 88.Ou será que jamais haviam saído de cena?A história política coletiva dos sentidos autoritariamente silenciados, história cujo imaginário não se iniciou em 1964, atravessou também inúmeras memórias familiares, e foi desaguando, com semelhanças e diferenças nas histórias particulares de sujeitos singulares.Na prática cotídiana vamos aderindo, muítas vezes sem saber o porquê ou qual a memória que nos mobiliza, a tantos e diferentes gestos de dizer, tàzer e significar, quase sempre imersos na ilusão de expressar sentidos 'escolhidos'.Minha vida acadêmica, profissional !2 e pessoal deu muitas voltas até chegar a este tema de tese e, depois, deu outras tantas até compreender, minimamente, a 'opção' feita.Sobre as margens do caminho que levaram a essa opção e sobre o percurso propriamente dito que se constituiu para analisá-lo e interpretá-lo, enuncio de uma posição marcada por vozes generosas, mas também conflitantes e contraditórias que interdiscursivamente me atravessam.Não (re)conheço todas, não busco dominà-las_ Pretendo apenas produzir sentidos que sei transitórios.nem falsos, nem verdadeiros, apenas adequados a uma prática discursiva em sua detenninação histórica.Por isso, e de acordo com o paradoxo constitutivo do trabalho de um analista de discurso.nesse estudo há uma incompletude necessária e produtiva_ Fazer a análise desse discurso jornalístico sobre o PCB foi uma tentativa de compreender os processos de produção de sentidos que (me) atravessam nas inUmeras H/histórias como sujeito, constituída por memórias, lacunas, recalques e desejos, querendo criticamente escapar da ilusão da transparência da linguagem, e para quem os sentidos sódepois.\3 '" Fazer AD, em resumo, representa uma tomada de posição que se quer critica quanto aos sentidos já-constituídos e dados como óbvios.É o que veremos a seguir.Acentuando a dimensão lingüístico-histórica da memória, para Orlandi (1996b) "é preciso que as enunciações passem para o anonimato para que se institua o sentido, o efeito de literalidade.Essa passagem para o anonimato é justamente o trabalho imaginário da história no processo enunciativo."Indiretamente, retornamos, aqui, ao discurso jornalístico: nas páginas do jornal se constrói uma ordem social desambigüizada que coloca em relação e em circulÍlção dizeres autorizados e dizeres anônimos, dando a ilusão de consensos ou dissensos polarizados, esquemáticos.Já vimos como pensar esta contradição, no entanto, como operá-la?Nesta pesquisa, interessa compreeender os processos de apagamento, os efeitos de evidência do já-lã que organizam a rede de filiações dos sentidos em sua aparência linear, estável e homogênea.Em outras palavras, a AD pennite fazer indagações tanto sobre as cadeias de produção e circulação de forrnulações 17 --trata-se aqui do nível intra-discursivo, da atualização de uma enunciação com suas seqüências lingüísticas de fato realizadas como sobre a memória constitutiva dos enunciados o interdiscurso.A noção de interdiscurso caracteriza, no plano da textualização da memória, o conjunto dos vestígios discursivos, resultantes dos deslocamentos, antagonismos e alianças entre FDs, que vão caracterizar, em termos da materialidade lingüística, o sentido das seqüências que se repetem, bem como os sentidos silenciados que podem intervir.Ao mesmo tempo, os sentidos que nã
Language: Italian
Open Access status: gold
OpenAlex ID: W4206553570
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