Year: 1991
Type: article
Abstract: MIGUEL REALEN ão creio possa haver tema mais fascinante do que este das invariantes axiológicas, isto é, da existência ou não de valores fundamentais e fundantes que guiem os homens, ou lhes sirvam de referência, em sua faina cotidiana.Seriam como que estrelas valorativas determinantes ou esclarecedoras de cada vocação, desde a do sacerdote para o sagrado à do poeta para a beleza, desde a do empresário para a riqueza à do filósofo para a verdade, desde a do jurista para a justiça à do trabalhador para a produção e o útil-vital.A magnitude do assunto suscita logo uma série de perguntas inquietantes: "serão tais valores primordiais inatos?Se não o forem, terão objetividade em si, mas como e quando a constituíram?Ou serão, ao contrário, meras aparências, simples idealizações subjetivas com que nos enganamos a nós mesmos, mascarando a nossa ignorância?".Vede que estão em jogo a natureza e o destino do homem, para sabermos se a sua vida tem um sentido, ou é mera folha solta e inerme, entregue aos surpreendentes e imprevistos avatares da História?Compreendeis, pois, nesta conferência, com que provocáis minha vaidade, -por ser o modo gentil e generoso de homenagear-me em meu octogésimo aniversário -compreendeis que é aconselhável começarmos pela análise da própia palavra Valor, dada a transparência primeira do verbo.Numa indagação fenomenológica, que partindo da consciência intencional se proteja nos horizontes da História e da Cultura, tentarei captar algo do sentido da palavra Valor nos momentos iniciais e sempre reveladores de sua compreensão.Não cuidarei de fazer arqueologia no mundo das idéias, mas apenas discernir algo de significativo no " estado nascente" da experiência valorativa.Nessa ordem de entendimento, cabe-me lembrar que a Antigüidade clássica não teve plena percepção do fenômeno axiológico, como o revela a verificação de que o substantivo Valor ou inexiste, como se dá em Roma, ou apenas representa um esboço dessa multiplicidade cada vez mais rica e desafiante de sentidos que o homem moderno sente necessidade de descobrir no âmago da palavra Valor.Os gregos usavam, sem dúvida, o substantivo áxia -raiz do termo Axiologia -mas ainda era de pobre conteúdo, servindo mais para indicar o preço ou valor de uma coisa, para distinguir uma situação meritória, ou seja, uma "dignidade" como tal merecedora de nosso apreço, ou ainda a fim de estimar-se a espécie e o grau de pena a ser aplicada.A bem ver, os gregos davam mais realce ao adjetivo áxios, quer dizer digno de estima, com que enalteciam a valentia dos heróis ou dos guerreiros, os seus valorosos estadistas e artistas e as virtudes válidas dos artífices.No plano filosófico, então, quando Platão ou Aristóteles se referem ao valor mais alto, preferem empregar a palavra ágathon, que significa bem, na qual estava inerente o sentido de valor.Na consideração do bem, todavia, já variavam as " valorações", apresentado que era o Bem por Platão como um arquétipo ideal, enquanto Aristóteles, realisticamente achegado às vicissitudes humanas, o via antes segundo razões de proporcionalidade.Ora, foi a prevalência do adjetivo áxios sobre o substantivo áxia que levou Cícero, ao transladar para o latim os vocábulos gregos, a ter a feliz percepção da palavra aestimabile, o que deve ser salientado, pois, em português, dizemos tanto "mundo dos valores" como "mundo das estimativas".Na falta do substantivo Valor, os romanos,a exemplo dos gregos, propenderam para a palava Bonum, um valor singular que assumia sentido genérico, prevalecendo entre os jurisconsultos, como bem supremo, a Justitia, universalmente entendida como divinarum ac humanarum rerum notitia.Não será demais notar que os romanos, ao indagarem do bem supremo, acolhiam a herança dos Estóicos, os quais haviam transferido o tratamento de ágathon, do bem, do plano ontológico -ainda prevalecente em Platão e Aristóteles -para o plano ético, dominante em sua cosmovisão naturalista.Permiti que, ao concluir este breve escorço histórico sobre a idéia de Valor na Antigüidade clássica, me arrisque a observar que era inda imprecisa ou reduzida a acepção dos termos áxia ou aestimabile, o que confirma minha afirmação sobre a inexistência então de uma Axiologia qua talis, de sorte que, na linha do pensamento clássico, não haveria que falar em invariantes axiológicas, mas sim em invariantes ontológicas ou éticas, estas no pensamento de Zenão e de Crisipo.Talvez se possa dizer que, enquanto um sentido não se substancializa plenamente, é sinal de que ainda se encontra em processo de formação ou de revelação, o que mostra o contraste impressionante entre o uso da palavra Valor entre os antigos mestres ocidentais e os pensadores modernos, por assim dizer angustiados pelo emprego dominador dessa palavra-chave, tão ligada ao sentimento dos riscos que atualmente ameaçam o destino do homem.Salvo engano, parece-me que a palavra Valor somente aparece no latim medieval, e, com mais plenitude, nas línguas novilatinas, notadamente no provençal e no italiano, fazendo pendant com o termo wert dos alemães.Todavia, nos textos filosóficos clássicos da Idade Média, escritos em latim, não encontramos a palavra Valor, prevalecendo ainda a palavra Bonum, mas em correlação direta com a idéia de Ens, a partir da convicção, de manifesto sentido religioso, de que quod est bonum est.Haveria muito que indagar sobre as razões da inexistência da palavra Valor na obra, por exemplo, de Santo Tomás de Aquino, tão rica de motivos axiológicos.E num discípulo de Santo Tomás, no entanto, em Dante Alighieri que encontramos a expressão eterno valore para indicar o supremo bem, como nos seguintes versos: " Si chè, quantunque carita si stende Cresce sovr 'essa l 'eterno valore" (Purg.XV, 71) ou " Guardando nel suo Figlio con l 'Amore Che 1'uno e l 'altro eternalmente spira Lo primo ed ineffabile Valore..." (Par.X, 1).ou ainda, 11 Vedi l 'eccelso e Ia larghezza De I'eterno Valor..." (Par.XXIX, 142).Como se vê, Deus é sentido por Dante como o primeiro, o eterno e o inefável Valor, o que demonstra quanto Heidegger se afasta da verdade quando assevera, na Carta sobre o Humanismo, que considerar Deus "o Valor mais alto" seria perpetrar a maior blasfêmia, por degradar-lhe a essência...
Source: Estudos Avançados
Author: Miguel Reale
Language: Portuguese
Subfield: Philosophy
Field: Arts and Humanities
Domain: Social Sciences
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W4211070499
