O Renascimento
Year: 2009
Type: article
Abstract: ELISÉE RECLUSEnquanto a força viva da civilização se dedicava ao descobrimento do mundo, voltava-se também para a reconstrução social interna, num grande sentimento de unidade humana, muito diferente da união fictícia obtida pela comunidade, puramente verbal, dos dogmas religiosos e pela hierarquia do clero católico.Costuma-se chamar de "Renascimento" ao período de emancipação intelectual que se produziu nos séculos XV e XVI, sob a dupla influência do aumento do saber no espaço e no tempo.Os descobrimento realizados na China e no Extremo Oriente por venezianos, na África e nas Índias por portugueses, depois no Novo Mundo pelos espanhóis e todos os navegantes da Europa Ocidental ampliaram os limites do horizonte terrestre ao tempo que se aumentou o vôo da imaginação e da audácia do pensamento; ocorreu o mesmo com a erudição pela reaparição da literatura antiga que unia os séculos presentes aos séculos passados por cima das origens mesmas da Igreja.A humanidade se engrandeceu duplamente: por um lado tomou posse de todo seu domínio terrestre sobre a redondeza completa do globo e por outro apoderou-se de sua herança greco-romana desde as origens de sua história.Semelhante época bem merece ser designada de uma maneira especial na sucessão das idades.Não obstante, a palavra "Renascimento" tem apenas um valor relativo, porque antes do século XV, antes da fuga dos gramáticos de Constantinopla levando seus livros para o Ocidente, as letras latinas jamais cessaram de ser cultivadas em Roma e nas Gálias: Virgílio até havia sido venerado nesses países na mesma altura dos padres da Igreja, quase divinizado.Não tinha havido o Renascimento italiano com um século de emancipação tendo Petrarca por precursor e não havia sido precedido ele pelo Renascimento árabe, durante o qual os mouros, os judeus, os levantinos levaram para a Europa o conhecimento da Ásia oriental, suas condições geográfi-109 * El Hombre y la Tierra, volume 4, capítulo XI, Casa Editorial Maucci, Barcelona, s/d.Tradução de Ruy Moreira, do Departamento de Geografia, UFF cas, sua população, seus produtos e sua história?Em todas as épocas houve "renascimentos" de um valor mais ou menos decisivo.Antes daquele que correspondeu aos descobrimentos de Gutenberg e de Colombo, costuma-se citar o de Carlos Magno, depois do século XII, que, excitado pela filosofia da antigüidade, teve a vantagem de não ser dominado por ela, como o estará sendo o grande Renascimento.Assim como são frequentes as emigrações e deslocamentos de comarca a comarca, dando lugar a fenômenos de ordem muito diferente da rotina das coisas, assim também podem-se realizar saltos de séculos a séculos sobre as idades intermediárias, dando às idéias antigas uma nova juventude: há descendências que não reflorescem senão depois de alguns intervalos de decadência e de esterilidade.Assim sucedeu com a literatura, a filosofia e a moral dos antigos, ao sair da sombria época da Idade Média.Na Itália foi principalmente onde a evolução da ciência e da arte, seguindo novas vias, manifestou-se da maneira poderosa capaz de receber o nome de "Renascimento": até designou-se por quattrocento a seu evento, expressão aplicada a todos os progressos do saber humano realizados na Itália durante o curso do século XV 1 .Fato relacionado com o Renascimento, naquela época, desaparecia a comuna municipal italiana, substituída em todas as partes pelo governo de um senhor.Uma única cidade conservava sua forma republicana, Veneza, separada da terra firme por lagunas e à qual condições especiais de política externa criavam uma vida completamente diferente da das outras cidades italianas.As causas da decadência e da ruína definitiva das comunas da Itália são fartos de evidência.Dividida em castas inimigas, cada uma delas consome suas forças em lutas internas, e, como ocorre sempre, a camada oprimida, quando a ocasião se apresenta, busca seus aliados no exterior; a nobreza urbana se apoia na nobreza estrangeira; os comerciantes ricos celebram alianças com os comerciantes poderosos de fora; o povo recorre às classes populares das cidades vizinhas, a menos que, em sua imprudência, não introduza dentro das muralhas algum senhor poderoso que lhe aplaque as paixões, ou aclame algum rico que distribua com largueza sua fortuna.Cada casta não vê mais que seus interesses particulares e nas cidades onde o equilíbrio se estabeleceu pouco a pouco, a comuna municipal não tem outro ideal que não ela mesma, e não compreende que se não se defende a liberdade de todos, a sua também está comprometida.
Source: GEOgraphia
Author: Elisée Reclus
Language: Portuguese
Subfield: History
Field: Arts and Humanities
Domain: Social Sciences
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W4234295765
