Year: 2022
Type: article
Abstract: VIOLÊNCIA O dossiê "Vida em família: socialidades e violência em multicontextos contemporâneos" surge de diálogos entre os organizadores e os autores dos artigos e do ensaio, que reconheceram em seus campos de pesquisa diferentes significações sobre a violência em contextos intrafamiliares, de conjugalidades e de construção de parentesco. 1 Violência é uma categoria posta em questão nos trabalhos aqui reunidos.Essa abordagem não pretende invalidar tal ou qual discurso político, ou constranger sujeitos empenhados nas práticas de governo da violência contra mulheres, crianças, idosos ou qualquer outro grupo apontado como vulnerável.Pretendemos, sim, questionar os efeitos semânticos e práticos da nomeação de certos atos e condutas como violências em contextos de elaboração de parentesco e/ou de relações familiares em paisagens sociais contemporâneas e diversas.Desde nossa perspectiva, a categoria violência exerce uma função qualificadora ou adjetivadora -mesmo em alguns discursos acadêmicos -responsável por produzir realidades substantivas (Rifiotis 2021).Ansiedades expressas em discursos e em práticas de governo (Foucault 1979) que buscam, entre outras coisas, afirmar os direitos dos sujeitos, tendem a essencializar a família como espaço onde se realizam os afetos, o cuidado e a cordialidade (Rifiotis 2021), excluindo narrativamente a possibilidade de que estas sejam, antes, emaranhados compostos por vários outros elementos, dentre eles o uso da força física, atos de coerção e de constrangimento.A exclusão narrativa e o lugar de ilegitimidade do uso da força física como recurso de manutenção e de construção de sujeitos e de posições podem limitar analiticamente a apreensão das representações e expectativas que se constroem dentro dos universos empíricos que se tentam compreender e governar: as casas, as relações conjugais e familiares.Logo, problematizamos e relativizamos a categoria violência por considerarmos que as nomeações têm efeitos e riscos, principalmente por seu papel estabilizador que fixa e congela sujeitos e relações que se constituem de maneira dinâmica (Gregori 2021).Tendo isso em vista, identificamos que variados discursos acadêmicos e políticos sobre as relações domésticas, familiares e/ou conjugais constroem expectativas de que o cuidado deveria ser o principal, talvez único, elemento constitutivo para as relações, por sua vez pretendidas como horizontais, igualitárias, reconhecedoras de liberdades, autonomias e direitos intrínsecos.Essa perspectiva desconsidera eventuais pretensões de validade localmente 1 Entendemos conjugalidades como relações estabelecidas entre duas pessoas (ou mais) que se comprometem (sexualmente, afetivamente, psicologicamente e/ou materialmente) com a intenção de efetivar uma relação ao longo do tempo.
Source: Etnografica
Institutions: Universidade de Brasília, Centre for Research in Anthropology
Language: Portuguese
Subfield: Health
Field: Social Sciences
Domain: Social Sciences
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W4308006636
