Nietzsche e Fanon
Year: 2025
Type: article
Abstract: A Genealogia da Moral de Nietzsche sugere que aristocracias produzem um contratipo escravo perigoso de agência moral fundamentada em ressentimento, que exibe uma moralidade de resignação. No decorrer do texto, ele mescla os registros biológico e político ao falar de tipos humanos como “espécies” (die Spezies) e de classes como “raças” (die Rassen), implicando com isso que todos os tipos humanos são socialmente construídos e que sua causa primária é a organização política. É neste sentido que Nietzsche é um “aristocrata radical”. Contra a visão conservadora de que a hierarquia social reflete uma ordem fixa na natureza, ele reconhece que hierarquias criam os tipos que buscam preservar, precisamente contra a contingência natural. Isto coloca um dilema prático para as aristocracias: como manter uma subclasse sem suscitar uma psicologia e uma moral escravas que [inevitavelmente] enfraquecem os valores aristocráticos? Em outros textos, Nietzsche responde com sua interpretação da lei Hindu de Manu. Cada aristocracia deve criar a ilusão de que classes são castas naturais em vez de construções políticas. Sistemas de castas são instituições culturais e ideológicas feitas para proteger sistemas de classes, por darem aparência de “espécies” fixas às identidades de classe: formas profundamente internalizadas de psicologia e agência moral, que reforçam posições de classe por serem mais rigidamente definidas e facilmente reconhecidas socialmente. Em Os Condenados da Terra, Frantz Fanon, de forma subversiva, redireciona essa teoria para longe das metas reacionárias de Nietzsche, na direção de outras revolucionárias, aplicando a lógica de Nietzsche à hierarquia racializada da colonização. Fanon também torna turva a linha entre social e biológico, referindo-se a colonizador e colonizado como “espécies” diferentes (espéces) e sugere que uma posição social faz com que indivíduos agrupados em classe desenvolvam as profundas identidades psicológicas e morais características de castas. Para Fanon, a raça é o meio primário de sociedades colonizadas darem suporte material à ideologia de casta. Apesar de socialmente determinados, conceitos de raça são ancorados em diferenças visíveis, conferindo à posição de classe do colonizado a falsa aparência de naturalidade. No entanto, contra Nietzsche, que culpa o oprimido pela moralidade do escravo, Fanon insiste que “o colonizador cria o colonizado.” A psicologia escrava se origina da classe dominante que, para salvar sua boa consciência, reinterpreta o privilégio como mérito, adotando uma visão maniqueísta de que os colonizados são essencialmente maus, o que leva ao bem assentado ódio contra eles como casta racializada. A psicologia primária do ressentimento dos colonizadores produz uma psicologia secundária do ressentimento entre os colonizados, dando forma a ambos como “espécies” opostas, identidades fundamentadas na exclusão um do outro, empurrando os colonizados não (como Nietzsche pensa) na direção de uma revolta moral, mas na direção de uma revolução política. A reconstrução crítica de Fanon da teoria de castas de Nietzsche tem três consequências importantes. Primeiro, a análise de Nietzsche implica, contra suas próprias esperanças, que aristocracias necessariamente produzem sua própria queda. Segundo, se a raça é politicamente construída como uma forma dissimulada de classe, o racismo não pode ser superado sem a superação das estruturas de classe cuja dissimulação motivou sua criação. Contudo, terceiro, se o sistema de castas produz não somente atitudes racistas, práticas e estruturas sociais, mas também o racista como espécie de identidade psicológica fundamentada no ressentimento, então enquanto classes políticas podem esclarecer as origens históricas do racismo, isto não evitará a continuidade do racismo dentre os membros existentes daquele tipo. Por consequência, políticas antirracistas não podem ser reduzidas a problemas de classe ou raça isoladamente.
Source: Estudos de Nietzsche
Author: Donovan Miyasaki
Language: Portuguese
Subfield: Philosophy
Field: Arts and Humanities
Domain: Social Sciences
Open Access status: diamond
OpenAlex ID: W4408608141
